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Do Sábado e do Domingo: História e Estórias

imagem4_132x176A diferenciação entre “estória”, com o sentido de fatos imaginários, contos, narrativas e “história” — história real, dados históricos, estudo de fatos passados — não vingou em nossa língua (talvez o ideal fosse dizer “não tem vingado”, dada a dinâmica da língua). Embora não seja defensor dessa distinção, ela até que parece ser útil em algumas situações: quando os dois conceitos estão muito próximos no texto, por exemplo, ou, como no caso a seguir, quando a intenção é comparar, como faziam os bereanos,  o teor de uma alegação ou afirmação com o registro das Escrituras.

Geoffrey Blainey, um dos mais renomados historiadores contemporâneos, autor do bestseller “Uma Breve História do Mundo”, Editora Fundamento, 2a Edição Revista e Atualizada, 2004, numa seção desse mesmo livro intitulada “O  Domingo, o Sal e as Escrituras”, às páginas 105 e 106, escreve:

A atual forma do cristianismo, as observâncias e os dias santos apareceram aos poucos. A princípio, o domingo não era necessariamente o dia do Senhor. Os judeus haviam reverenciado o sábado como seu dia e, de início, os cristãos tendiam a reverenciar esse dia como o coração da semana. São Paulo começou a conferir ao domingo o dia de reverência, uma vez que era o dia da ressurreição de Cristo. Quando o imperador Constantino tornou-se cristão e fez com que o Império Romano entrasse em conformidade com sua nova fé, sua lei de 321 declarou o domingo como sendo o dia de adoração na cidade, porém, não no interior. Lá, as vacas e cabras tinham de ser ordenhadas, a colheita feita e a terra arada, independentemente do dia da semana.”

Como se vê, embora haja muito de história nas informações de Blainey, o lado “estórico” também está lá, bem no centro da passagem: “São Paulo começou a conferir ao domingo o dia de reverência, uma vez que era o dia da ressurreição de Cristo.”

Quem conhece as cartas de Paulo, os evangelhos e o livro de Atos, sabe que a afirmação diz mais do que a realidade e está  longe de retratar a prática ou o pensamento paulino. Não há nenhum trecho em suas cartas – e, de resto, em nenhum documento do Novo Testamento – que atribua “reverência” ao primeiro dia da semana. Na verdade, sem mencionar aqui as várias referências em que apontam distintamente o sétimo dia como o sábado sagrado,  é com essa simples expressão (“no primeiro dia da semana”), desprovida de qualquer rotulação religiosa, que os evangelistas retratam — décadas depois da ressurreição, ressalte-se — algumas circunstâncias ou fatos ocorridos no dia a que hoje chamamos “domingo”. 

Com a ideia em mente de que Paulo teria supostamente começado a conferir ao domingo as credenciais de dia santificado, o leitor superficial pode, ainda, ser levado a outro equívoco: o de pensar que o “dia de reverência” possa ser estabelecido arbitrariamente, por vontade humana, sendo o critério para a escolha desse dia algum acontecimento miraculoso ou relevante para a história da humanidade nele ocorrido. Essa noção desconsidera o contexto bíblico referente à instituição do dia de descanso. Nele, o estabelecimento de um dia santo, específico e separado dos demais, é de origem divina, e só Deus, sendo o Criador e soberano do universo, pode legislar sobre o assunto, não havendo nenhum registro, seja no Velho seja no Novo Testamento – mesmo diante de acontecimentos tão marcantes como a morte e a ressurreição de Cristo –, que aponte um movimento divino no sentido de ordenar a alteração do mandamento e de sua justificativa primordial: “Lembra-te do dia de sábado para o santificar…Porque em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia do sábado, e o santificou.” Êxodo 20:8-11.

O lado bom dessa “história” é que, se o leitor atentar para a citação de Baliney, excluindo apenas a infundada alegação referente ao apóstolo Paulo, terá, de certo modo, um quadro sucinto e em harmonia com a história real: o sábado é o único dia ao mesmo tempo santificado por Deus em Sua Palavra e reverenciado pelos cristãos que protagonizaram o início do Cristianismo. O próximo passo para quem tiver o interesse despertado para esse assunto (tão importante) pode muito bem ser uma pesquisa mais cuidadosa das Escrituras, a fim de confirmar: a  mudança do “dia de reverência” do sábado para o domingo, tendo supostamente como responsável o próprio Senhor Jesus Cristo ou um de seus discípulos, ou o apóstolo Paulo, não passa de mais uma daquelas “estórias” que se infiltraram em nossa cultura sem nenhum fundamento escriturístico. O ato legislativo de Constantino (este, sim, um fato inconteste) referente à “santificação” do domingo teve por consequência, portanto, não a conformação com o Cristianismo primitivo, mas um desvio não autorizado de sua base doutrinária. O aprofundamento do estudo dessa questão, revelará ,ainda, à luz da profecia bíblica, não apenas os desdobramentos históricos dessa disjunção como também a grande relevância do conhecimento desse tema no tempo em que vivemos.