Publicado em Palestras, Perguntas e Respostas, Reflexões

Quando um Argumento “da Lua” É Submetido à Razão

 

 

Numa sessão de perguntas e respostas depois de uma fala de Richard Dawkins, Paul Copan fez alusão a um argumento apresentado por C S Lewis, Alvin Plantinga, Michael Rea, Victor Reppert e também mencionado por Patrica Churchland, Thomas Nagel, William Whewell e Friedrich Nietzche. O argumento é que se nossas faculdades cognitivas evoluíram por seleção natural, não dirigida por Deus, então estas faculdades cognitivas não merecem racionalmente confiança quanto a nos dar a verdade. A literatura sobre o argumento é interessante, mas não vou comentar a respeito disso aqui.

O que me interessa é o comentário feito por Dawkins, que ganha o aplauso da platéia. Dawkins parece não compreender o ponto do argumento e  o toma como se lhe tivessem pedindo uma razão por que ele defende o “racionalismo científico”. Ele diz que acredita no racionalismo científico porque este “funciona”. E então dá um exemplo de como “funciona”:  “a ciência nos lança à Lua, enquanto a religião lança aviões contra prédios.”

Muito poderia ser dito aqui, mas eu quero me limitar a um único ponto: a evidência que Dawkins cita de que a ciência funciona e a religião não. Dawkins aponta que a ciência tem feito coisas boas, como levar-nos à Lua; e a religião tem feito coisas ruins, como a destruição do World Trade Centre no 11 de Setembro. Em outras palavras, as coisas positivas que a ciência faz recomendam que ela seja tomada como algo em que devemos confiar, ao passo que as coisas negativas que religião faz recomendam que esta seja considerada como algo em que não devemos confiar.

Então, vamos examinar a afirmação que Dawkins faz de que a “ciência” nos levou à Lua. Agora, como é que um ente pode nos levar à Lua? Presumivelmente, o que ele quer dizer é que foi através da ciência que se desenvolveu a tecnologia de propulsão de foguete que nos permitiu chegar à Lua.

Mas aqui está o problema. Se o fato de que a ciência desenvolveu a tecnologia de propulsão que nos levou à Lua significa que a ciência é responsável pelo voo à Lua, e pode ter o crédito disso, então a ciência deve ser responsável pelo voo ao World Trade Center; a ciência desenvolveu a tecnologia de propulsão de aviões, por isso deve ser a ciência a culpada, e não a religião.

Além disso, os foguetes são usados ​​para outras coisas além das viagens aéreas e ao espaço. O primeiro país que foi à Lua usou foguetes muitas vezes para matar pessoas. Então, se a ciência é responsável por nos levar à Lua, o mesmo raciocínio sugere que ela também é responsável por todos os que foram mortos em combate, por foguetes.

Por outro lado, se a ciência não é a responsável pelo ataque ao World Trade Center, porque apenas desenvolveu a tecnologia e as pessoas que fizeram isso foram motivados por ideais, visão e motivação em relação à tecnologia utilizada para levar isso a efeito, então a ciência não é responsável por nos levar à Lua; não foi apenas a tecnologia que nos levou até lá; foram também as pessoas com certos ideais, visão e motivação.

O ponto é que não se pode com credibilidade dar à ciência o crédito por algo quando a tecnologia científica como a propulsão de foguetes é usada para bons propósitos, afirmando que isso é evidência de que a ciência “funciona”, e não dar igualmente o crédito a ela quando a propulsão de foguetes é usada para propósitos negativos, não admitindo que isso seja evidência de que a ciência “não funciona”.

A realidade é que os benefícios que a ciência nos proporciona não são apenas o resultado da tecnologia, mas também o uso dessa tecnologia por pessoas com certa visão, ideais, motivação e assim por diante. Questões sobre como devemos viver, o que é certo e errado, que tipos de propósitos devemos seguir são questões filosóficas e teológicas que a ciência não pode, por si mesma, responder. Do mesmo modo os males feito em nome da religião são o resultado não apenas de determinados valores religiosos, mas também do uso da tecnologia científica – muitas vezes a tecnologia é pesquisada e desenvolvida justamente com o propósito de matar pessoas.

O ponto, então, é que ambas, ciência e religião, podem causar danos e ambas podem causar benefícios. A tecnologia nos beneficia quando é usada por pessoas que têm determinadas linhas de orientação moral e espiritual, que direcionam a ciência para o bem. A ciência não nos salvará daqueles de mau caráter; ela irá simplesmente dar-lhes as ferramentas para fazer mais mal. Da mesma forma, a correta orientação espiritual e moral, por si só, não vai beneficiar muita gente sem as ferramentas para fazê-lo. Ambas as forças operam em cada conquista ou falta de realização da humanidade. Não “funcionam” ou falham em “funcionar” no sentido que Dawkins menciona. Os comentários de Dawkins sobre racionalismo científico podem funcionar quando se trata de fazer a platéia rir, mas isso é tudo.

 

Versão de um dos posts do excelente site MandM (Matt and Madeleine Flannagan).
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