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As “Más” Consequências de Ensinar o Cristianismo às Crianças

Em um livro dedicado ao público jovem, Harold Coffin escreveu que a medida máxima do valor de um sistema de crenças é o efeito e a influência que tem sobre a vida de seus adeptos. Quais seriam, então, os prováveis efeitos e a influência do modo como um sistema de crenças encara a educação das crianças, por exemplo?
 
Em um post em “homenagem” a Richard Dawkins — geneticista ateu que em um de seus livros defendeu a ofensiva proposição de que ensinar religião às crianças é “abuso infantil” —, Thomas A. Gilson reapresenta alguns dos resultados de importante pesquisa sobre os efeitos da educação religiosa na vida dos adolescentes americanos. O que segue é parte do que ele escreveu [a motivação do post vem da contínua e anti-intelectual recusa de Richard Dawkins de debater o conteúdo de seu livro com o apologista cristão William Lane Craig].
Segundo Thomas, o que Dawkins faz é astutamente comparar a educação religiosa com o abuso sexual, e sentenciar a primeira como sendo pior. Mas o famoso cientista tenta sustentar essa afirmação sem dados sistemáticos, apenas com algumas páginas de historietas, relatos de pessoas que sofreram nas mãos de educacores religiosos mal-orientados. Histórias como essas, infelizmente, podem ser encontradas, mas o que elas representam?
Se a formação religiosa deve ser tomada como abuso de crianças, então isso implica uma hipótese científica óbvia: crianças com educação religiosa devem mostrar alguns dos sintomas típicos das crianças abusadas. Estes sintomas são bem conhecidos. Eles incluem medo, ataques de pânico, distúrbios alimentares, depressão, baixa auto-estima, irritabilidade, dificuldade em se relacionar com os outros, abuso de substâncias, e assim por diante.
Há dados que permitem testar essa hipótese?
Christian Smith, sociólogo da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill [agora em Notre Dame], conduziu um estudo amplo e autoritativo chamado Estudo Nacional da Juventude e Religião. Os resultados foram publicados no livro de 2005  Soul Searching: The Religious and Spiritual Lives of American Teenagers (Em Busca da Alma: A Vida Espiritual e Religiosa dos Adolescentes Americanos, em co-autoria com Melinda Lundquist Denton), pela editora da Universidade Oxford, a mesma universidade a que Dawkins está vinculado. 

Este estudo ordenou seus 3.290 participantes em níveis de envolvimento religioso: os Devotados, os Regulares, os Esporádicos e os Não-envolvidos. Como os agrupamentos religiosos  predominantes nos Estados Unidos são cristãos, os  “Devotados” e “Regulares” eram predominantemente cristãos — protestantes e católicos. Portanto, estes resultados podem muito bem ser tomados como relativos especificamente ao cristianismo (resultados para outras religiões são difíceis de determinar a partir dos dados).

Os adolescentes mais próximos do grupo “Devotados” e não do grupo “Não-envolvidos” eram os menos envolvidos em comportamentos negativos como:

  • Hábitos: fumar, beber, usar maconha, usar pornografia, jogos de “ação”/violência; assistir a filmes restritos;
  • Na Escola: notas baixas, turmas de recuperação, suspensões ou expulsões;
  • Atitudes: mau humor, rebeldia para com os pais;
  • Sexo: envolvimento físico precoce, incluindo número de parceiros e idade de primeiro contato sexual.

Os mais “Devotados” na escala apresentaram mais destes resultados positivos:

  • Bem-estar emocional: Satisfação com a aparência física, planejamento para o futuro, reflexão sobre o sentido da vida, sentimento de estar sendo cuidado, libertação da depressão, não se sentir sozinho e incompreendido, não se sentir “invisível”, não se sentir culpado com frequência, ter um senso de significado para a vida, relacionar-se bem com os irmãos;
  • Interação com os adultos: proximidade com os pais,  conexão com um bom número de adultos, sentir-se compreendido pelos pais, sentir que os pais dão atenção, sentimento de que têm a “quantidade certa de liberdade” dos pais;
  • Raciocínio moral e honestidade: Crença na moralidade estável e absoluta, menor tendência a adotar uma mentalidade de competição e de levar vantagem (“get-ahed”) ou a mentalidade de apenas buscar prazeres, menos propensos a mentir para os pais e trapacear na escola;
  • Compaixão: Consideração pelas necessidades dos pobres, cuidado com os idosos, preocupação com a questão da justiça racial;
  • Comunidade: Participação em grupos, doações financeiras, trabalho voluntário (inclusive com pessoas de diferentes raças e culturas), ajuda a pessoas desabrigadas, disposição para assumir liderança nas organizações.

As descobertas são esmagadoras. Página após página, gráfico após gráfico, em cada uma das 91 variáveis estudadas, quanto mais próximos os adolescentes ficaram da escala dos “Devotados”, mais saudável suas vidas se mostraram.

Esses são os resultados do “abuso infantil” de Dawkins, aquilo que ele reclama como sendo tão ruim para as crianças. Até o momento, este é o melhor estudo já publicado sobre o assunto. E o curioso é que esses dados já estavam disponíveis bem antes que Dawkins publicasse seu ataque. Ele teve ampla oportunidade de saber o que a ciência tinha a dizer.

H. Allen Orr escreveu: “[Dawkins] tem um conjunto predeterminado de conclusões a que ele está determinado a chegar. Consequentemente, [ele] usa qualquer argumento, ainda que débil, que parece levá-lo lá.” Em outras palavras, ele vê apenas o que quer ver. O irônico é que isso é o que ele acusa os crentes de fazer.
Fonte: Thinkingchristian.net

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