Publicado em Pensamentos, Perguntas e Respostas

Deus: uma “Muleta” Psicológica?

 

Crutch
 
 
 
 

Feuerbach, Freud, Marx, entre outros líderes céticos e ateus, propalaram essencialmente a ideia: Deus seria um sonho da mente humana, a figura de um pai idealizado, uma projeção psicológica motivada pela necessidade que as pessoas têm de encontrar segurança e algum conforto em meio a uma realidade cruel e insensível. Do lado cristão, Alister McGrath rebate ao afirmar:  “Se a crença em Deus foi uma resposta a um desejo humano de segurança, não poderia também ser argumentado que o ateísmo foi  uma resposta ao desejo humano de autonomia?”

Em artigo publicado no Enrichment Journal, Paul Copan,  professor de Filosofia e Ética da Palm Beach Atlantic University e autor de vários livros na área de apologética, apresenta pelo menos sete razões por que o argumento do lado ateísta não se sustenta:

Primeiro, o próprio Freud reconheceu que sua “psicanálise” da religião não tinha o apoio da evidência clínica. Em 1927, Freud confessou a Oskar Pfister – um antigo psicanalista e pastor protestante – que suas perspectivas sobre a projeção religiosa “são as minhas opiniões pessoais.”(6) Freud tinha muito pouca experiência psicanalítica com genuínos crentes religiosos e não publicou nenhuma análise dos crentes com base em evidência clínica.(7)

Em segundo lugar, esse argumento comete a falácia genética, que é o erro de atribuir verdade ou falsidade a uma crença com base em sua origem ou gênese. Só porque você aprendeu matemática de um professor excêntrico, no ensino fundamental, não se segue que o que ele lhe ensinou (2 +2 = 4) deva ser falso. Quando o cético usa a falácia genética contra o crente, isto acaba se transformando numa espécie de insulto – um argumento ad hominem (“contra o homem”); ele ataca a pessoa e ignora o argumento. Mesmo que todos os crentes em Deus mantivessem seus pontos de vista por razões de qualidade inferior ou irracional, isto ainda não faria nada para refutar a existência de Deus.

Terceiro, precisamos distinguir entre a racionalidade da crença e a psicologia da crença. A psicologia da crença (como as pessoas chegam a acreditar em Deus) é uma questão diferente da racionalidade da crença (por que acreditam ou por que há boas razões para acreditar em Deus). Nós podemos oferecer boas razões para a existência de Deus (o início ou a surpreendente sintonia fina do universo, a consciência e a beleza, argumentos históricos para a ressurreição de Jesus). Para descobrir se Deus existe ou não, não devemos olhar para os motivos das pessoas, mas sim discernir se existem boas razões para acreditar ou não.

Em quarto lugar, é estranho e arbitrário afirmar que tudo o que traz conforto e consolo é falso. Uma sopa favorita ou uma xícara de chá em um dia frio geram conforto. Claramente não há nada de errado com os prazeres de um bom alimento. O alimento e o abrigo são confortantes, e famílias saudáveis trazem segurança e conforto, mas isso dificilmente faz a comida, o abrigo e a família ilegítimos. Por que, então, assumir que uma crença deve estar errada, se acontecer de ela proporcionar conforto?

Em quinto lugar, a natureza incuravelmente religiosa dos seres humanos poderia indicar provavelmente, e justamente, um vazio colocado por Deus, que só Ele pode preencher. Se fomos feitos para viver com Deus e encontrar refúgio e segurança em relação a Ele, então não devemos nos surpreender que o próprio Deus tenha colocado este impulso religioso dentro de nós – que Deus tenha colocado a eternidade em nossos corações (ver Eclesiastes 3:11). Neste caso, esse desejo é um indicador para o transcendente. Como Santo Agostinho expressou: “Fizeste-nos para Ti mesmo, ó Deus, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar descanso em Ti.” Esse desejo acaba por ser um suporte do teísmo, não um argumento contra ele.

Em sexto lugar, uma figura paterna confortadora, enquanto exclusiva para a fé bíblica, não está no coração das outras religiões do mundo. O ensinamento de Jesus exclusivamente apresenta Deus como Abba (um título judeu para papai) –  o Pai pessoal do crente.(10) Não encontramos tal termo, íntimo e pessoal para a Última Realidade nas outras grandes religiões do mundo; muitas religiões orientais veem a Última Realidade como algo abstrato e impessoal. Além disso, se Deus é uma fabricação, por que fabricar um Deus que é trino – Pai, Filho e Espírito? E por que inventar uma divindade, não controlável e complexa, que estabelece limites para os nossos impulsos e nosso egocentrismo e até mesmo que irá nos julgar? Isso é diferente dos todos-muito-humanos deuses e deusas falhos da Grécia e de Roma.

Em sétimo lugar, a tentativa de “psicologizar” crentes se aplica mais facilmente ao ateísta endurecido. É interessante que enquanto ateus e céticos muitas vezes psicanalisam o crente religioso,  eles regularmente falham em psicanalisar sua própria rejeição de Deus. Por que os crentes estão sujeitos a  tal exame e os ateus não? Que tal lembrar de outra característica da psicanálise de Freud – ou seja, o ressentimento subjacente que deseja matar a figura do pai?

Não há razão para presumir o ateísmo como a posição racional, psicologicamente sã e padrão e o teísmo como alguma forma psicologicamente deficiente.  O professor de psicologia da New York University Paul Vitz vira o jogo em tal pensamento. Ele diz essencialmente: “Vamos olhar para a vida dos líderes ateus e céticos no passado. O que elas têm em comum?” O resultado é interessante: praticamente todas essas figuras principais careciam de um modelo paterno positivo – ou não tiveram a presença de um pai.(11)

Vejamos alguns desses líderes:

  •  Voltaire (1694-1778): Este crítico mordaz da religião, embora não um ateu, rejeitou fortemente seu pai e o seu nome de nascimento François-Marie Arouet.
  • David Hume (1711-1776): O pai deste cético escocês morreu quando Hume tinha apenas 2 anos de idade. Biógrafos de Hume não mencionam parentes ou amigos da família que poderiam ter servido como figuras paternas.
  • Baron d’Holbach (1723-1789): Este ateu francês tornou-se órfão aos 13 anos e viveu com seu tio.
  • Ludwig Feuerbach (1804-1872): Aos 13 anos, seu pai deixou sua família e foi viver com outra mulher em uma cidade diferente.
  • Karl Marx (1818-1883): O pai de Marx, um judeu, foi convertido ao luteranismo sob pressão, não por qualquer convicção religiosa. Marx, portanto, não respeitou seu pai.
  • Friedrich Nietzsche (1844-1900): ele tinha 4 anos quando perdeu seu pai.
  • Sigmund Freud (1856-1939): Seu pai, Jacob, foi uma grande decepção para ele, era passivo e fraco. Freud também mencionou que seu pai era um pervertido sexual e que seus filhos sofreram por isso.
  • Bertrand Russell (1872-1970): Seu pai morreu quando ele tinha 4 anos.
  • Albert Camus (1913-1960): Seu pai morreu quando ele tinha 1 ano de idade, e em seu romance autobiográfico O Primeiro Homem, seu pai é a figura central de sua obra.
  • Jean-Paul Sartre (1905-1980): O pai do famoso existencialista morreu antes de ele nascer.(12)
    Madeleine Murray-O’Hair (1919-1995): Ela odiava o pai e até tentou matá-lo com uma faca de açougueiro.

Poderíamos citar mais alguns proeminentes ateus contemporâneos não mencionados por Vitz com desafios semelhantes na infância:

  • Daniel Dennett (1942 -): Seu pai morreu quando ele tinha 5 anos de idade e teve pouca influência sobre Dennett.(13)
  • Christopher Hitchens (1949 -2011): Seu pai (“o Comandante”) era um bom homem, segundo Hitchens, mas ele e Hitchens “não tinham muita conversa”. Partindo de  “uma distância respeitosa”, seu relacionamento assumiu um “degelo ocasional”  até “frieza definitiva”. Hitchens acrescenta: “Eu sou um pouco estéril de lembranças paternas.” (14)
  • Richard Dawkins (1941 -): Embora incentivado por seus pais para estudar a ciência, ele menciona ter sido molestado quando criança – um evento não insignificante, embora Dawkins considere-o apenas embarassador.(15)

Além disso, o estudo de Vitz observa quantos teístas proeminentes no passado – como Blaise Pascal, GK Chesterton, Karl Barth e Dietrich Bonhoeffer – tiveram em comum um pai amoroso e atencioso em suas vidas.(16)

Concluindo, o argumento cético da projeção da figura paterna, apresentado para refutar a existência de Deus comete a falácia genética. Para piorar as coisas do lado cético ou ateísta, os porta-vozes mais proeminentes do ceticismo e do ateísmo arrastam eles próprios uma considerável bagagem psicológica.

Devemos considerar os méritos dos argumentos a favor e contra a existência de Deus, sem descartar argumentos com base neste ou naquele motivo pessoal. No entanto, Vitz nos lembra que fatores psicológicos (como saúde, memórias agradáveis da infância contra memórias dolorosas) podem, de fato, ter uma influência sobre a forma como uma pessoa passa a acreditar ou não acreditar; esses fatores subconscientes não são irrelevantes e podem se revelar uma barreira psicológica para a crença . Eles podem tornar a confiança em Deus difícil quando aqueles de quem se espera estarem mais próximos de nós se tornam indignos da nossa confiança ou não estão mais presentes.

Quando as pessoas me dizem que têm dificuldade em confiar em Deus (mesmo quando elas têm boas razões para acreditar em Deus e gostariam de acreditar), eu pergunto sobre seus antecedentes familiares, particularmente sobre a relação com o pai. Na minha experiência, a resposta típica é: “Como você sabia?” ou “Você está certo.” Neste caso, a segurança de uma comunidade cristã amorosa pode desempenhar um papel significativo em ajudar a restaurar a habilidade de confiar no Pai sempre-amoroso. Sua confiabilidade é especialmente evidente no amor de Cristo, em dar Ele a Sua vida por nós. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito para que todo o que nEle crê não pereça mas tenha a vida eterna”. (João 3:16)

 

Fonte: Adaptado de Enrichment Journal. Paul Copan, Is God Just a Psychological Crutch for the Weak?
Mantidos os números das referências bibliográficas como no original:
[…]
6. Sigmund Freud and Oskar Pfister, Psychoanalysis and Faith: The Letters of Sigmund Freud and Oskar Pfister, ed. H. Meng and E. French, trans. E. Mosbacher (New York: Basic Books, 1962), 117.
7. Paul C. Vitz, Faith of the Fatherless (Dallas: Spence, 1999), 8,9.
[…]
10. James D.G. Dunn, “Prayer,” in Dictionary of Jesus and the Gospels, eds. I. Howard Marshall, et al. (Downers Grove, Illinois: InterVarsity Press, 1992), 619.
11. Vitz, “The Psychology of Atheism,” Truth 1 (1985): 29–36. See also Vitz’s Faith of the Fatherless; also fromFaith of the Fatherless, 17–57.
12. Sartre apparently did become a believer in God before he died, however. See National Review, 11 June 1982, 677.
13. Roger Bingham, “The Science Studio with Daniel Dennett.” Available at: http://thesciencenetwork.org/media/videos/29/Transcript.pdf. Accessed 11 October 2011.
14. Christopher Hitchens, Hitch-22: A Memoir, Large Print Edition (New York: Twelve/Hachette, 2010), 64,67,21,69.
15. Richard Dawkins, The God Delusion (New York: Houghton, Mifflin, Harcourt, 2008), 316.
16. See Vitz’s Faith of the Fatherless.

Outro bom artigo sobre o assunto: “Quem realmente usa muletas? O Cristianismo ou o  Ateísmo?”, de Rob Lungber. Em inglês aqui: Who Really Holds the Crutch? Christianity or Atheism?

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Um comentário em “Deus: uma “Muleta” Psicológica?

  1. Acho que não importa o nosso antecedente, se tivemos pai ou não, pois em Deus deveríamos ter o nosso reconforto, o nosso milagre, a nossa recuperação dos traumas, mas o que aprendemos é que a mesma recuperação depende de nós mesmos e Deus não nos ajuda a nos recuperar destas coisas, pois todo o processo depende somente de nós e à nós sobram as consequências, sejam boas ou ruins. Nos decepcionamos, como meu caso, por exemplo, por perder credibilidade na figura paterna de Deus. Por isso hoje eu acredito na autonomia, na atitude, na ação.

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