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As Imagens “Ultraevidentes” da Pressuposta Evolução Humana

Se, no campo do Direito, “ultrapetita” é o termo usado para a sentença em que o juiz vai além do pedido, concedendo mais do que aquilo que foi pleiteado, no campo da propaganda evolucionista poderíamos designar como “ultraevidentes” imagens e cenários que tentam dizer mais do que as evidências permitem afirmar.

Como já foi dito em outro post, a evidência fóssil para a suposta evolução humana permanece fragmentária, difícil de decifrar e acaloradamente debatida.

Muito do que circula no meio popular sobre o assunto, porém, está fincado no “aprendizado” adquirido dessas imagens “ultraevidentes”, ou seja, imagens que tentam propagar mais do que o que se pode efetivamente concluir da análise das evidências. O livro Science & Human Origins (Ciência e Origem do Homem) traz alguns capítulos específicos em que são avaliadas as alegações da suposta evolução humana. O que segue é uma espécie de resumo do assunto de um desses capítulos, apresentado em um post intitulado The Fragmented Field of Paleoanthropology (o Fragmentado Campo da Paleontologia), publicado por Luskin Casey, um dos autores do livro:

Science and Human Origins cover.jpg

Os seres humanos, chimpanzés e todos os organismos que conduzem de volta ao seu suposto ancestral comum mais recente são classificados por cientistas evolucionistas como “hominídeos” (“homínidas” ou também “hominins”). A disciplina da paleoantropologia é dedicada ao estudo dos restos fósseis de hominídeos antigos. Os paleoantropólogos enfrentam uma série de grandes desafios no seu esforço para reconstruir a história da evolução dos hominídeos.

Primeiro, os fósseis hominídeos tendem a ser poucos e distantes entre si. Não é incomum existirem longos períodos de tempo para os quais existem poucos fósseis que deveriam documentar a evolução que supostamente teria ocorrido. Como os paleoantropólogos Donald Johanson (o descobridor de Lucy) e Blake Edgar observaram em 1996, “cerca de metade do período de tempo nos últimos três milhões de anos [segundo a cronologia evolucionista] permanece sem o registro de  nenhum fóssil humano” e “desde o período mais remoto da evolução dos hominídeos, mais de 4 milhões de anos atrás [segundo a cronologia evolucionista] , apenas um punhado de fósseis, em grande parte não diagnosticados, foi encontrado.”(3) Assim, tão “fragmentados” e “desconectados” são os dados, que, na avaliação do zoólogo de Harvard Richard Lewontin, “nenhuma espécie de hominídeos fósseis pode ser estabelecida como o nosso ancestral direto”.(4)

O segundo desafio enfrentado por paleoantropólogos são os próprios espécimes fósseis. Fósseis hominídeos típicos consistem literalmente de fragmentos ósseos simples, tornando-se difícil tirar conclusões definitivas sobre a morfologia, comportamento e relações de muitos espécimes. Como o falecido paleontólogo Stephen Jay Gould observou: “a maioria dos fósseis de hominídeos, mesmo servindo como uma base para intermináveis especulações e contos elaborados, são fragmentos de mandíbulas e pedaços de crânios”.(5)

Um terceiro desafio é reconstruir com precisão o comportamento, a inteligência ou morfologia interna dos organismos extintos. Usando um exemplo dos primatas vivos, o primatologista Frans de Waal observa que o esqueleto do chimpanzé comum é quase idêntico ao de sua espécie-irmã, o bonobo, mas eles têm grandes diferenças de comportamento. “Com base exclusivamente em alguns ossos e crânios”, escreve De Waal, “ninguém se atreveria a propor as grandes diferenças de comportamento reconhecidos hoje entre o bonobo e o chimpanzé”.(6) Ele sustenta que isto deve servir como “um alerta para paleontólogos que estão reconstruindo a vida social de restos fossilizados de espécies há muito extintas”. O exemplo de Waal se refere a um caso em que os investigadores têm esqueletos completos, mas o antigo anatomista C. E. Oxnard, da Universidade de Chicago, explicou como esses problemas são intensificados quando os ossos estão em falta: “Uma série de ossos do pé relacionados de Olduvai [desfiladeiro na África Oriental que abriga fósseis australopitecíneos] foi reconstruída para uma forma muito semelhante ao pé humano hoje, embora um pé igualmente incompleto de um chimpanzé também possa ser reconstruído da mesma maneira”.(8)

Reconstruções corporais de hominídeos extintos são também muitas vezes altamente subjetivas. Elas podem tentar diminuir as capacidades intelectuais dos seres humanos e exagerar a dos animais. Por exemplo, um livro didático popular de ensino médio (9) caricatura os neandertais como intelectualmente primitivos, embora eles apresentem sinais de arte, linguagem e cultura (10), ao passo que apresenta o Homo erectus como uma forma rebaixada e inábil, embora seu esqueleto pós-craniano seja extremamente semelhante ao dos humanos.(11) Por outro lado, o mesmo livro retrata um australopitecino semelhante a macaco com traços de  inteligência e de emoção humana em seus olhos – uma tática comum em livros ilustrados sobre a origem do homem.(12) O antropólogo da Universidade da Carolina do Norte, Jonathan Marks adverte contra isso quando lamenta as “falácias” de  “humanizar os macacos e ‘macaquear’ os humanos”.(13) As palavras do famoso físico e antropólogo Earnest A. Hooton da Universidade de Harvard ainda soam verdadeiras: “as alegadas restaurações de tipos antigos de homem têm muito pouco valor científico, se é que têm algum, e provavelmente existem apenas para enganar o público.”(14).

Diante desses desafios, poderia se esperar cautela, humildade, moderação de cientistas evolucionistas quando são discutidas hipóteses sobre as origens humanas. E às vezes isso é realmente encontrado. Mas, como vários comentadores têm reconhecido, muitas vezes encontramos precisamente o oposto.(15) Calma e serena objetividade científica no campo da paleoantropologia evolutiva pode ser tão rara quanto os próprios fósseis. A natureza fragmentada dos dados, combinada com o desejo de paleoantropólogos de fazerem afirmações confiantes sobre a evolução humana, leva a divergências acentuadas dentro do campo, como apontado por Constance Holden em seu artigo na revista Science intitulado “The Politics of Paleoanthropology (A Política da paleoantropologia). Holden reconhece que “a evidência científica primária” invocada por paleoantropólogos “para construir a história evolutiva do homem” é “um conjunto lamentavelmente pequeno de ossos… Um antropólogo comparou a tarefa àquela de reconstruir o enredo de Guerra e Paz com 13 páginas selecionadas ao acaso”.(16) De acordo com Holden, é precisamente porque os pesquisadores precisam tirar suas conclusões a partir desta “evidência extremamente insignificante” que “muitas vezes é difícil separar aquilo que é pessoal das disputas científicas no campo”.(17)

Não se engane: as disputas em paleoantropologia são muitas vezes profundamente pessoais. Como Donald Johanson e Blake Edgar admitem, ambição e busca por reconhecimento, financiamento e fama podem tornar difícil para os paleoantropólogos admitir quando estão errados: “O surgimento de evidências discordantes é, por vezes, saudado com uma reiteração resistente de nossos pontos de vista originais… Leva tempo para desistir de nossas teorias de estimação e assimilar as novas informações. Enquanto isso, a credibilidade científica e o financiamento para mais trabalho de campo pesam na balança”.(18)

Na verdade, a busca pelo reconhecimento pode inspirar total desprezo para com outros pesquisadores. Depois de entrevistar os paleoantropólogos para um documentário em 2002, o produtor Mark Davis, da PBS NOVA,  informou que “cada especialista em Neanderthal pensava que o último com quem eu havia conversado era um idiota, se não um verdadeiro Neanderthal”.(19)

Não é de admirar que a paleoantropologia seja um campo repleto de dissidências e com poucas teorias universalmente aceitas entre os seus praticantes. Mesmo a mais estabelecida e confiantemente afirmada teoria da origem humana pode estar baseada em evidência limitada e incompleta. Em 2001, o editor da Nature Henry Gee admitiu: “a evidência fóssil da história evolutiva humana é fragmentária e aberta a várias interpretações.”(20)

Apesar dos desentendimentos generalizados e controvérsias que acabamos de descrever, há uma história padrão da suposta origem humana, contada e recontada em inúmeros livros, artigos de jornais e revistas. O que o terceiro capítulo do livro faz é rever a evidência fóssil e avaliar se ele suporta essa suposta história da evolução humana. Como veremos, a evidência – ou a falta dela – muitas vezes atravessa o caminho da história evolutiva.

Nota: Você pode adquirir Science & Human Origins na Amazon. Recomendá-lo aqui não significa, obviamente, concordar com tudo o que lá está escrito. O livro também traz, pelo que pude ler nas reviews (e como é natural esperar), pontos de vista com os quais este blogue não se alinha, mas, como se pode ver pelo exemplo deste post, há certamente bastante material de interesse para quem deseja se aprofundar na controvérsia entre evolução e criação.

“Eu fiz a terra e criei nela o homem.” Isaías 45:12

Boa leitura!

Fonte: EvolutionNews

Referências citadas no original (citações acima com tradução simples deste blog):
[3.] Donald Johanson and Blake Edgar, From Lucy to Language (New York: Simon & Schuster, 1996), 22-23.
[4.] Richard Lewontin, Human Diversity (New York: Scientific American Library, 1995), 163.
[5.] Stephen Jay Gould, The Panda’s Thumb: More Reflections in Natural History (New York: W. W. Norton & Company, 1980), 126.
[6.] Frans B. M. de Waal, “Apes from Venus: Bonobos and Human Social Evolution,” in Tree of Origin: What Primate Behavior Can Tell Us about Human Social Evolution, ed. Frans B. M. de Waal (Cambridge: Harvard University Press, 2001), 68.
[7.] Ibid.
[8.] C. E. Oxnard, “The place of the australopithecines in human evolution: grounds for doubt?,”Nature, 258 (December 4, 1975): 389-95 (internal citation removed).
[9.] See Alton Biggs, Kathleen Gregg, Whitney Crispen Hagins, Chris Kapicka, Linda Lundgren, Peter Rillero, National Geographic Society, Biology: The Dynamics of Life (New York: Glencoe, McGraw Hill, 2000), 442-43.
[10.] See notes 124-139 and accompanying text.
[11.] Sigrid Hartwig-Scherer and Robert D. Martin, “Was ‘Lucy’ more human than her ‘child’? Observations on early hominid postcranial skeletons,” Journal of Human Evolution, 21 (1991): 439-49.
[12.] For example, see Biggs et al., Biology: The Dynamics of Life, 438; Esteban E. Sarmiento, Gary J. Sawyer, and Richard Milner, The Last Human: A Guide to Twenty-two Species of Extinct Humans (New Haven: Yale University Press, 2007), 75, 83, 103, 127, 137; Johanson and Edgar,From Lucy to Language, 82; Richard Potts and Christopher Sloan, What Does it Mean to be Human? (Washington D.C.: National Geographic, 2010), 32-33, 36, 66, 92; Carl Zimmer,Smithsonian Intimate Guide to Human Origins (Toronto: Madison Press, 2005), 44, 50.
[13.] Jonathan Marks, What It Means to be 98% Chimpanzee: Apes, People, and their Genes(University of California Press, 2003), xv.
[14.] Earnest Albert Hooton, Up From The Ape, Revised ed. (New York: McMillan, 1946), 329.
[15.] For a firsthand account of one paleoanthropologist’s experiences with the harsh political fights of his field, see Lee R. Berger and Brett Hilton-Barber, In the Footsteps of Eve: The Mystery of Human Origins (Washington D.C.: Adventure Press, National Geographic, 2000).
[16.] Constance Holden, “The Politics of Paleoanthropology,” Science, 213 (1981): 737-40.
[17.] Ibid.
[18.] Johanson and Edgar, From Lucy to Language, 32.
[19.] Mark Davis, “Into the Fray: The Producer’s Story,” PBS NOVA Online (February 2002), accessed March 12, 2012, http://www.pbs.org/wgbh/nova/neanderthals/producer.html.
[20.] Henry Gee, “Return to the planet of the apes,” Nature, 412 (July 12, 2001): 131-32.

2 comentários em “As Imagens “Ultraevidentes” da Pressuposta Evolução Humana

  1. Jephsimple,

    Mudei de área de trabalho recentemente. Ainda me adaptando à nova rotina. O tempo tem sido curto para produzir e publicar com a frequência que gostaria.
    Mesmo tendo feito tão pouco, agradeço suas palavras de incentivo.
    Deus continue abençoando sua vida. A Ele toda glória. Um abraço!

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