Publicado em Livros, Pensamentos, Pesquisas, Reflexões

Darwin: Retrato de um Gênio?

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O eminente historiador britânico e autor de vários best-sellers Paul Johnson acaba de publicar um livro que está provocando reações histéricas em muitos darwinistas. Sobre Johnson, diz a Wikipedia:

No campo da História, Paul Johnson emerge como a grande figura das três últimas décadas, ocupando com justiça um espaço que pertencera a Churchill. A produção intelectual de Paul Johnson não tem paralelo recente. Nascido em 1928 na Inglaterra, ele até hoje utiliza a máquina de escrever. Assim mesmo, produz alentados volumes de História, numa velocidade alucinante que já o levou a publicar mais de 35 livros, sem contar milhares de artigos e ensaios em revistas e jornais do Reino Unido e dos Estados Unidos. Ainda hoje, com mais de 70 anos, publica semanalmente um artigo no The Spectator e colabora regularmente com o jornal The Daily Mail.

O livro em questão é Darwin – Portrait of a Genius – Darwin: Retrato de um Gênio (ainda não traduzido em português; as citações diretas que aparecem nesta postagem são versões deste blogue; o texto da “review” que segue, acrescido de pequenas adaptações, é de Michael Flannery).

Mas o que há de “errado” com a obra de Jonhson?

O trabalho de Johnson não é propriamente uma biografia, mas a avaliação, do ponto de vista de um historiador, da moderna teoria da evolução e do homem por trás dela.  Tem a forma não de um relato exaustivo da vida e obra de Charles Darwin, mas sim de um ensaio, um ensaio de 151 páginas, para ser preciso. Há muito valor em um trabalho deste tipo. Afinal, [… ] a opinião de um historiador considerado experiente sobre a importância e o impacto da teoria da evolução de Darwin, despojada de minúcias, tem valor real.

Como enfatiza Johnson, Darwin produziu uma explicação para a diversidade da vida (descendência comum por meio de seleção natural) que foi transformadora no modo como as pessoas viam a si mesmas e o mundo. Era uma ideia para o seu tempo. Desde a sua publicação em 24 de novembro de 1859, “A Origem das Espécies” rapidamente tornou-se o volume de leitura obrigatória para grande parte da Inglaterra, e não apenas para a elite.

A aquisição de 500 cópias pela Biblioteca Circulante de Mudie (uma encomenda extraordinariamente grande) ajudou a apresentar Darwin à classe média em ascensão. Na verdade, Johnson observa corretamente que a entusiástica aquisição e distribuição de “A Origem” por Mudie foi crucial para o selo de aprovação da sociedade.

Apesar da popularidade da magnum opus de Darwin, Johnson explica ainda que sua teoria completa está, na realidade, contida nos três livros. Primeiro, é claro, veio “A Origem” – On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life (o seu melhor livro, uma sucinta e acessível exposição de sua teoria), depois, em 1871, A Descendência do Homem – The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex (a conexão explícita de seus princípios evolutivos com a humanidade) e, finalmente, um ano depois, A Expressão da Emoção em Homens e Animais – The Expression of the Emotions in Man and Animals (uma compilação estranha cujo objetivo era fornecer “evidências” de que o homem era diferente do animal em grau, não em tipo). Onde “A Origem” obteve sucesso, “A Descendência do Homem” e “A Expressão da Emoção” falharam. A forma como Darwin lidou com os atributos humanos foi superficial e, ao comparar a humanidade com outras espécies, foi muitas vezes ingenuamente antropomórfico.

Grande parte do livro consiste de “divagações sem qualquer valor científico” (p. 105), enquanto outras partes só serviram para justificar estereótipos raciais. A abordagem de Darwin à seleção sexual, quando aplicada ao Homo sapiens, foi paternalista e patriarcal. A razão por que “A Descendência” foi uma produção tão inferior, Johnson observa, é que Darwin era um antropólogo fraco. Ele “não trouxe à sua observação dos seres humanos o mesmo cuidado, a objetividade, a notação aguda e a calma que sempre mostrou quando estudava as aves e criaturas do mar, insetos, plantas e animais. Ele precipitou-se em conclusões e deu crédito a historietas” (p. 29). O livro de Darwin “A Expressão das Emoções” não foi melhor: uma estranha coleção de extrapolações das reações de animais para as emoções humanas, aumentada com “fotos de histéricos, lunáticos, selvagens e outras interessantes imagens documentais” (p. 102).

Dois pontos importantes feitos por Johnson: primeiro, ele liga a teoria de Darwin aos aspectos mais inconvenientes do darwinismo social. Não é que Darwin seja pessoalmente responsável por isso, mas o livro propõe uma idéia que ganhou vida própria. Como Johnson coloca:

“A Origem” é um livro que, com total sucesso, incorpora uma ideia empolgante e teve um impacto devastador intelectual e emocional sobre a sociedade mundial. A palavra devastador é correta: destruiu muitas  suposições confortáveis, abrindo assim espaço para que novos conceitos e ideias surgissem  em quase todos os assuntos. Ele agiu como uma força da natureza em si, e até o final de janeiro de 1860, quando a segunda edição se esgotou, tinha ido muito além do controle de Darwin” [pp. 130-131].

A ideia de Darwin de vida emergente da atividade totalmente aleatória da seleção natural impulsionada por acaso e necessidade (enfatizando a criação doméstica como um exemplo primário e prova deste processo) abriu o caminho para a eugenia, esterilizações forçadas e até mesmo para a “higiene racial” da Alemanha nazista. Richard Weikart escreveu em profundidade sobre esses temas nos livros “From Darwin to Hitler” (De Darwin a Hitler) e Hitler’s Ethic (A Ética de Hitler), mas Johnson também aborda a influência do darwinismo social (direta ou indireta) sobre o pensamento de Mao Tse-tung, Stalin e Pol Pot, entre outros.

Quanto aos efeitos trágicos do darwinismo social na América, basta ler os comentários de Samuel J. Holmes em 1939 para verificar a influência da eugenia americana às vésperas da expansão nazista e sua conexão darwiniana. Harry Bruinius estimou que esterilizações forçadas de “inaptos” nos Estados Unidos durante os anos pré-Segunda Guerra Mundial podem ser modestamente estimadas em 65.000.  Harry Laughlin, nascido em Iowa, se tornaria o líder eugenista dos Estados Unidos, e seu entusiasmo pelo “melhoramento racial” foi igualado apenas por sua admiração pela Alemanha em perseguir este objetivo. Não foi por mero capricho que a Universidade de Heidelberg lhe concedeu um doutorado honorário por suas contribuições à “higiene racial” em 1936 (ver Bruinius, Better for All the World: The Secret History of Forced Sterilization and America’s Quest for Racial Purity – Melhor para Todo o Mundo: A História Secreta da Esterilização Forçada e Busca da América pela Pureza Racial).

Apologistas de Darwin podem externar reações indignadas, mas não podem refutar esses tristes fatos. Sua reação, no entanto, é esperada. Essa é a resposta de ideólogos quando confrontados com a exposição do evangelho de seu santo padroeiro favorito e de suas consequências. Para estes, a segunda “ofensa” de Johnson é objetar corretamente “ao entusiasmo dos fundamentalistas darwinistas, que ao longo das últimas décadas têm procurado dar a Darwin um status quase divino e atacar aqueles que o submetem, bem como seu trabalho, ao escrutínio crítico contínuo, o que é a essência da verdadeira ciência. Darwin foi o primeiro a admitir suas limitações, e. . . elas eram numerosas e, por vezes, importantes.” [p. 150].

Há no livro algumas falhas em relação a detalhes sobre Alfred Russel Wallace, à suposta oposição de Darwin a vacinação, entre outras, mas, apesar destes erros, os poderes analíticos de Johnson estão no seu melhor quando avalia o impacto da teoria de Darwin sobre a sociedade e, de fato, sobre o próprio Darwin. Discípulos de Darwin podem lamentar a conexão tanto quanto quiserem, mas o mundo materialista dirigido pelo acaso, inaugurado por seu herói de Down House, teve consequências humanas devastadoras. “No século XX,” Johnson conclui, “é provável que mais de 100 milhões de pessoas tenham sido mortas ou tenham morrido de fome como resultado de regimes totalitários infectados com variedades de darwinismo social” (p. 136).

Em um nível pessoal, a teoria da evolução que Darwin passou grande parte de sua vida promovendo – a sua “criança” –  pesou sobre ele nos últimos anos. O “gênio” de Darwin veio de seus poderes de observação, não da sua capacidade de pensar abstratamente e profundamente. Johnson observa que Darwin “deliberadamente fechou os olhos às últimas consequências de sua obra, em termos da condição humana e do propósito da vida ou da ausência deste propósito. Embora às vezes, em suas obras publicadas, ele colocasse uma frase reconfortante, suas opiniões privadas tendiam a ser sombrias” (pp. 144-145). Não é surpreendente que o seu “buldogue defensor” Thomas Henry Huxley também tivesse que lidar com a questão da moralidade numa natureza cega, sem propósito. O niilismo atormentou a ambos.

Os revisores que insistem que o trabalho de Johnson é “ridículo” (entre outros “elogios”) estão errados. É um livro que segue alguns estudiosos corajosos e excelentes como Jacques Barzun, Gertrude Himmelfarb, R. F. Baum, Stanley Jaki, Phillip Johnson e Benjamin Wikerem, os quais sugerem que a teoria da evolução de Darwin é construída sobre premissas questionáveis e teve um efeito deletério sobre cada sociedade que ela tenha tocado. Os fundamentalistas darwinianos não gostam de admitir isso, mas mais de 20 anos depois do lançamento de Darwin on Trial (Darwin no Banco dos Réus), do advogado Phillip Johnson, o questionamento incessante continua. Desta vez, um Johnson diferente examina a testemunha. “Darwin: Retrato de um Gênio” certamente recebeu este título em um espírito de ironia, mas ainda assim representa um resumo valioso e interessante para uma opinião minoritária em constante expansão.

O Professor Michael Flannery é autor de “Alfred Russel Wallace: Uma Vida Redescoberta” (Discovery Institute Press) e outros livros.

Fonte: EvolutionNews

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