Publicado em ciência, Reflexões

A Arqueologia, a Bíblia e o Argumento do Silêncio

Por muito tempo, Pôncio Pilatos foi considerado uma figura não histórica pelos que rejeitam o testemunho bíblico. Achados arqueológicos no início da década de 60, porém, confirmaram a historicidade do oficial romano como prefeito da Judéia. A ideia básica por trás de um argumento do silêncio (argumentum ex silentio) é a de que a ausência ou “silêncio” de algo demonstra a verdade de certa proposição ou conclusão (no caso de Pilatos, por exemplo, o raciocínio equivocado era: “se não há registro arqueológico de pessoa X, então essa pessoa nunca existiu, é um mito”). 

Como é possível construir virtualmente qualquer argumento baseado no silêncio, torna-se fácil e “conveniente” elaborar esse tipo de argumento nas mais variadas circunstâncias. Assim, no que se refere à Bíblia, nomes como Abraão, Davi, Salomão, Daniel, Belsazar e muitos outros – assim como cidades como Babilônia, Sodoma, Gomorra e até mesmo Nazaré – já foram e ainda são muitas vezes envolvidos, de alguma forma, em algum tipo de argumento do silêncio.

Um antigo editorial do Institute for Biblical Archeology revela, porém, por que, em se tratando da arqueologia – e especialmente da arqueologia bíblica -, o argumento do silêncio não se mostra uma boa ideia. 

                          ARGUMENTOS DE SILÊNCIO ARQUEOLÓGICO

A recente descoberta do Prof. Krahmalkov de listas-mapas egípcias que apoiam a precisão histórica do Êxodo e da Conquista de Canaã destruiu um argumento poderoso usado por “rejeicionistas” críticos da Bíblia contra a exatidão histórica do Antigo Testamento.

O argumento que esses críticos levantavam contra o Antigo Testamento era o de  que uma vez que não havia nenhuma evidência arqueológica para a existência de três principais cidades antigas [Dibom, Hebrom e Quisom] durante a última Idade do Bronze, então as histórias do Antigo Testamento de Moisés, Josué e Débora não eram historicamente corretas, um argumento baseado no “silêncio” arqueológico.
Krahmalkov mostrou, a partir de evidências epigráficas egípcias, que essas três cidades-chave antigas existiam durante a última Idade do Bronze [1560-1200 a.C].
A descoberta de Krahmalkov aponta para o perigo muito real de fazer afirmações com base em argumentos do silêncio arqueológico.

Os não-arqueólogos é que são freqüentemente mais impressionados com o silogismo arqueológico defeituoso usado por críticos da Bíblia como segue:

  • Nenhuma evidência arqueológica foi encontrada para um determinado período da história em um determinado sítio.
  • A Bíblia diz que este local foi habitado durante este mesmo período da história.
  • Portanto, a Bíblia é historicamente incorreta.

O maior problema com este silogismo defeituoso é a primeira proposição. A ausência de evidência arqueológica pode ser – e muito frequentemente é – causada por uma variedade de razões, não relacionadas ao fato histórico.

Primeiro, os arqueólogos só escavam uma área muito limitada de um sítio. Contrariamente à crença comum entre os leigos, mesmo a cidade antiga mais bem escavada teve menos de 5% de sua superfície explorada. E leva anos de trabalho – e, normalmente, várias equipes arqueológicas – para escavar esses 5%.

Se arqueólogos selecionam bem seus locais de escavação, eles podem obter muitas informações desses 5% que eles escavam. Mas, com 95% desses bem escolhidos lugares como Jericó, Jerusalém, Hazor e Hebrom ainda não escavados, é muito perigoso colocar muito peso sobre a ausência de informações arqueológicas de um determinado período. E a grande maioria dos sítios arqueológicos do Oriente não foram “bem escavados.”

Na verdade, a maioria dos sítios não têm tido nenhum trabalho arqueológico feito neles. Um arqueólogo estima que menos de 1/10 de um por cento dos estratos arqueológicos em locais arqueológicos conhecidos no Oriente Médio foi escavado. Outro arqueólogo afirmou em uma palestra, cerca de 8 anos atrás, que, no Iraque, 850 sítios antigos foram identificados. Segundo ele, desses 850 sítios, apenas 50 tinham qualquer tipo de escavação, boa ou ruim, em andamento. Dos 50 escavados, apenas 5 foram completamente escavados.
Três anos depois dessa palestra, os arqueólogos iraquianos encontraram 62 quilos de jóias de ouro em túmulos reais em uma das cinco cidades bem escavadas que tinha sido mencionada!!!!

Em outras palavras, um estrato pode parecer estar faltando em um sítio apenas porque o trabalho arqueológico nesse lugar ainda não foi concluído.

Segundo, há várias outras boas razões por que um estrato arqueológico pode estar ausente em um sítio de uma escavação, razões que nada têm a ver com a questão de povos antigos terem ou não realmente habitado um determinado sítio em um determinado período da história. Por exemplo, observe as seguintes razões por que um estrato pode estar faltando no sítio de uma escavação arqueológica em particular:

  • O foco da cidade pode ter se deslocado de um lado do sítio para outro, ou a cidade pode ter diminuído em tamanho por um período de tempo. Isto pode causar a falta de um estrato de um sítio em uma área e esse estrato ainda existir em outro sítio nessa mesma área.
  • A localização de uma cidade antiga pode ter mudado para outro local próximo. Por exemplo, a Jericó no Antigo Testamento, a Jericó do Novo Testamento e a Jericó moderna estão todas em locais diferentes na mesma área básica.
  • Construções posteriores em um campo podem destruir ou mover a evidência do estrato que falta. Cidades antigas eram frequentemente destruídas e reconstruídas. Antigos trabalhadores da construção civil  limpavam e nivelavam um sítio antes de reconstruí-lo. Consequentemente, material arqueológico completamente ausente em um sítio pode ser achado em abundância em outro sítio, que era usado como aterro. Este fato é bem conhecido dos arqueólogos.

E, terceiro, um estrato arqueológico pode também aparentar estar em falta no local de uma antiga cidade pelas seguintes razões adicionais:

  • A estratigrafia do local foi mal interpretada ou mal datada pelos arqueólogos. Alguns arqueólogos muito influentes no passado fizeram isso com os estratos que encontraram. Embora isso seja menos comum hoje em dia, continua ainda a ser um problema. Observe, por exemplo, o erro de datação de Kathleen Kenyon em relação aos estratos de Jericó. Também deve ser notado que as ideologias e teorias continuam a desempenhar papéis importantes na datação de estratos.
  • O campo foi mal identificado. Há muito poucos mapas antigos, dando a localização exata das cidades antigas. Não é incomum que arqueólogos modernos discordem sobre a identificação de um determinado campo. A identificação de alguns locais muito importantes – a cidade bíblica de Ai, por exemplo – é ainda altamente debatida.

Qualquer uma das razões dadas acima pode explicar por que um estrato está faltando no local de uma determinada escavação. Uma vez que estes fatos são bem conhecidos dos arqueólogos, estudiosos da Bíblia e historiadores, é hora de parar de basear conclusões supostamente acadêmicas em argumentos baseados no silêncio arqueológico. Argumentos baseados no silêncio arqueológico são, na melhor das hipóteses, muito fracos; na pior das hipóteses, beiram a desonestidade intelectual.

Extraído de ARCHEOLOGY NEWS DIGEST (IBA)
Leia mais sobre a Arqueologia e a Bíblia (Dr. Rodrigo Silva) aqui.
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