Publicado em Livros, Pensamentos, Reflexões, Testemunhos

A Verdade Seja Dita (Em Quem Você Tem Acreditado?)

A verdade importa? Em quem temos acreditado? Se todos os testemunhos, formais ou informais, em todas as eras da história, forem averiguados quanto a sua veracidade [e isso é perfeitamente possível além das limitações humanas], qual deverá ser o resultado? O que teremos “produzido” mais: verdades ou falsidades?

Na realidade, talvez seja ainda mais relevante nos perguntar quais as razões (ou as consequências) de escolher uma ou outra trilha de comportamento. Que grau de relevância tem um testemunho verdadeiro ou um testemunho falso na vida social?

A reflexão ganha importância especialmente quando temos o cristianismo (ou os opositores dele) em mente. Isso porque a religião cristã é histórica e está baseada no depoimento de testemunhas oculares.

Sabendo disso, alguns céticos, ao se insurgirem contra toda e qualquer evidência que corrobora “a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd. 3), chegam ao ponto de menosprezar o próprio valor do testemunho pessoal. Buscando fontes do Direito, por exemplo, podem selecionar autores que apenas repetem menções de desprezo moderno à prova testemunhal (sem apresentar análise equilibrada e aprofundada sobre o assunto). Ao citá-los como apoio para sua atitude de descrença, “esquecem-se” (?) de avisar que essa visão é “parcial” – não apenas na acepção de “partidarismo” religioso (ou anti-religioso) mas principalmente no sentido de “incompletude” do assunto no campo jurídico.

Felizmente, não é necessário fazer muito esforço para ter acesso a uma análise mais ampla da questão. Sem promover aqui nenhuma atitude de credulidade irrestrita e irrefletida – o que é vedado pelo princípio bíblico “Não deis crédito a todo espírito” (I João 4:1) , apresento, abaixo, transcrição de lição clássica sobre as bases da prova testemunhal, ao lado de pensamentos de juristas também clássicos ou contemporâneos sobre a questão. Isso para que ninguém seja limitado, em sua visão, pela manifestação unilateral ou desarmoniosa de mais essa espécie de “hiperceticismo seletivo”. As primeiras citações, embora curtas, já podem gerar rica reflexão (basta nos perguntar se concordamos com elas); a última, mais extensa e esclarecedora, adentra no interessante campo da presunção de veracidade (vale a pena ler).

Antes, porém, é preciso relembrar: como proposição geral, o testemunho cristão só pode ser classificado como verdadeiro ou como falso. Além disso, como destaca Daniel Wallace, professor de estudos do Novo Testamento no Dallas Theological Seminary, “a Bíblia é o único grande texto sagrado que se sujeita à verificação histórica. É o único que se coloca em risco”.

É importante, portanto, considerar o que foi testemunhado em termos amplos: [“Não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade” (2 Pedro 1:16);  “O que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam… O que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros” (I João 1:1-3) “Muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares” (Lucas 1:1-3)].

Ao fazerem as afirmações acima, os evangelistas ou autores dos livros que compõem a Bíblia não são reunidos no grupo de “culpados até que se provem inocentes”. Na realidade, o exame de seu testemunho deve começar na mesma condição da do homem médio, ou seja, sob a presunção de que as pessoas em geral percebem e narram a verdade. No caso específico, em acréscimo ao peso natural das próprias declarações desses escritores em favor da verdade e das marcas de sua honestidade (ver aqui), a pesquisa arqueológica, dentro das limitações do estudo histórico e da pertinência de cada contexto, tem acumulado dinamicamente um acervo cada vez  mais rico de evidências corroboradoras do registro bíblico  a descoberta do tanque de Betesda (narrativa de João 5), ilustrado na imagem acima, é um bom exemplo disso.

Obviamente, o testemunho cristão pode ser rejeitado. E isso não é surpreendente. Na realidade, os próprios evangelistas tornam explícita essa possibilidade, sem olvidar, porém, o registro das consequências:

“Aquele que o viu, disso deu testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que está dizendo a verdade, e dela testemunha para que vocês também creiam” João 19:35

“Quem vos ouve, a mim me ouve; e quem vos rejeita, a mim me rejeita; e quem a mim me rejeita, rejeita aquele que me enviou.” Lucas 10:16

“Aquele que me rejeita e não acolhe as minhas palavras tem quem o julgue; a Palavra que proclamei, essa o julgará no último dia.” João 12:48

O que se depreende das linhas gerais do testemunho dos evangelhos, portanto, é que descrer dele e negá-lo é abraçar uma mentira e ficar à espera de julgamento. Voltamos, portanto, ao ponto inicial. A verdade importa? Em quem temos acreditado?

“Pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos.” Atos 4:20

*******

Citações (Direito):
“A atestação dos homens é a prova universal de todos os fatos humanos.”
José da Cunha Narravo Paiva (Tratado Teórico e Prático das Provas no Processo Penal)
*******
“O número de fatos sujeitos à percepção imediata de cada indivíduo não é senão uma gota de água lançada no vaso, em paralelo daqueles de que somos informados pela referência de outrem.”
Bentham (Jeremy), citado por José da Cunha Narravo Paiva no mesmo livro (Tratado Teórico e Prático das Provas no Processo Penal).
[a inserir outras citações]

*******

A presunção da veracidade humana, inspirando fé na afirmação de uma pessoa, faz com que ela seja procurada e aceita como prova pessoal, do mesmo modo que a presunção da veracidade das coisas, inspirando fé na afirmação de uma coisa, faz com que ela seja procurada e aceita como prova real. Falando da presunção em geral, referimo-nos a ambas estas presunções particulares. Tornaremos a falar aqui da primeira, isto é, da presumida veracidade humana, reservando-nos para falar da segunda a propósito da prova material, isto é, da presumida veracidade das coisas.

O fundamento, portanto, da afirmação de pessoa em geral, e do testemunho em especial, é a presunção de que os homens percebam e narrem a verdade, presunção fundada por sua vez na experiência geral da humanidade, experiência que mostra como em realidade, no maior número dos casos, o homem é verídico: verídico, por tendência natural da inteligência, que encontra na verdade, mais fácil que a mentira, a satisfação de uma necessidade ingênita; verídico, por tendência natural da vontade, a quem a verdade aparece como um bem, e a mentira como um mal; verídico finalmente, porque esta tendência natural da inteligência e da vontade, é fortificada no homem social não só pelo desprezo da sociedade pelo mentiroso, mas também pelas penas religiosas e pelas penas civis que se erguem ameaçadoras sobre a sua cabeça.

Esta presunção da veracidade dos homens acompanha-nos em todas as evoluções internas do pensamento, como em todas as exteriorizações da atividade. Esta fé nas afirmações alheias desponta inconscientemente na nossa alma, ainda crianças, antes que a experiência das coisas e dos homens a venha confirmar; e, com o crescer dos anos, esta fé, tornando-se raciocinada e cautelosa, é a força da nossa virilidade e o tranquilo repouso da nossa velhice.

A criança que levanta o seu braço com o dedo estendido apontando para os céus ignotos, e balbucia o grande nome de Deus; a criança que se ajoelha sobre o pequeno leito, e de mãos postas começa a implorar cheia de confiança o seu bom anjo; a criança crê em Deus e no seu bom anjo, porque neles lhe falou a sua mãe. E quando, com os olhos e o espírito concentrados sobre o seu livrinho, soletra, dando um som às letras e às sílabas, julga que àquelas letras e àquelas sílabas devem por um consenso comum corresponder aqueles sons, porque o professor lho disse.

E mesmo avançando em idade e nos estudos, não é possível haver progressos intelectuais, quando se não adquira o impulso da fé nos outros. Quando se medita sobre as forças e sobre os fenômenos da natureza física, é necessário pois começar por ter fé na descrição das observações e das experiências alheias, antes de passar às experiências e observações próprias. Se se medita sobre as forças e sobre os fenômenos da natureza moral, estudando a humanidade na sua vida intelectual, social ou política, nas várias épocas e lugares, é necessário contudo atender-se ao testemunho dos outros, e ter fé nele.

Toda a vida do nosso pensamento nunca se separa completamente da fé na exposição do pensamento alheio: é acreditando nisto, e apoiando-se nisto, que o nosso pensamento vai mais longe e mais alto. Mas a fé nas afirmações alheias assiste-nos, não só na vida espiritual, mas principalmente em todas as ocorrências da vida prática. A maior parte das ações humanas, desde a infância à velhice, não tem por guia senão a fé nas afirmações alheias.

Relativamente ao primeiro período da existência, pode dizer-se que nele toda a vida não é mais do que um contínuo acreditar nos outros: do bem que não conhecemos e que procuramos alcançar, aos males que não conhecemos e procuramos evitar, sempre sob a fé da palavra alheia. E esta fé, que guia e regula as ações, não nos abandona com o crescer dos anos, mas torna-se antes cada vez mais cautelosa e raciocinada. São tão poucas as coisas e as pessoas que podemos conhecer por meio da nossa observação direta e pessoal, que a vida tornar-se-ia absolutamente impossível, se não prestássemos fé às observações alheias para regular as nossas ações, relativamente a todas as coisas e a todas as pessoas que não conhecemos diretamente. 

Sem a fé na veracidade alheia, nem mesmo a palavra, vínculo intelectual, moral e social das almas, teria já razão de ser: para que serviria a palavra, se não existisse a fé na coisa por ela significada? Suponhamos que uma alma já não tenha fé em coisa alguma; e ela não poderá senão ocultar-se estéril na prisão escura e taciturna da própria consciência. Suponhamos que um homem não tem fé alguma nos outros, e ele, vendo em todo o seu semelhante um inimigo, não saberá já como viver no consenso civil, e, tornando-se selvagem pela suspeita e pelo ódio, refugiar-se-á na solidão de uma floresta.

Acreditar e ser acreditado, a troca confiante dos pensamentos, das notícias, das reflexões, a reunião, enfim, de todas as observações individuais dispersas, em um tesouro comum e imenso, de onde todos recebem, e para o qual todos contribuem: eis a força latente, intelectual, que se chama civilização, e que faz subir incessantemente a sociedade humana a um nível mais alto: eis a força latente, moral, que se chama solidariedade, e que associa a si como irmãos, na grande unidade da família humana, milhares de existências individuais, dispersas no espaço e ao tempo. A presunção, portanto, de que os homens em geral percebem e narram a verdade, presunção que serve de base a toda a vida social, é também base lógica da credibilidade genérica de toda a prova pessoal, e do testemunho em particular.

(Nicola Malatesta. A Lógica das Provas em Matéria Criminal  domínio público)

Anúncios
Publicado em ciência, Livros, Pensamentos, Perguntas e Respostas, Pesquisas, Reflexões

“A Bíblia Entre os Mitos”: Que Diferença!

Vivemos em uma época de reducionismo. Isso se torna especialmente evidente pelo uso comum da palavra “apenas”. Os reducionistas dizem: “a mente humana é apenas um sistema complexo de matéria” ou “a moralidade é apenas um subproduto da evolução para a sobrevivência do grupo.”[1] Quando se trata de estudos bíblicos, normalmente o reducionismo assume a seguinte forma: “As narrativas do Gênesis são apenas mais um mito do Oriente Próximo Antigo.”

Os pós-evangélicos usam hoje, regularmente, esses argumentos. Em nível popular, escritores como Rachel Held Evans comentam sobre os “notadamente semelhantes”  relatos da criação e do dilúvio do Antigo Oriente Próximo em relação aos encontrados em Gênesis. Compreender Gênesis como não histórico, um mito não científico, que contém os mesmos “recursos literários humanos” e “pressupostos cosmológicos” que os do Antigo Oriente Próximo teria sido, segundo ela mesma, “libertador”.[2] Peter Enns é o estudioso pós-evangélico mais frequentemente associado com essa visão. Em seu livro Inspiration and Incarnation (Inspiração e Encarnação), Enns procurou mostrar que Deus se ajustou às  culturas do Antigo Oriente Próximo, usando formas literárias não históricas e não científicas em Gênesis (e em outros escritos) para comunicar a sua mensagem.[3] Muitos seguiram a sua liderança, especialmente aqueles que procuram resolução da [suposta] discórdia percebida entre fé e ciência.

No contexto da academia secular, tais pontos de vista são inquestionáveis. O paradigma dominante se originou na Escola “História das Religiões”. Essa perspectiva do século 19 considerava que a religião monoteísta era originária das classes mais baixas da sociedade primitiva, da criação do xamanismo tribal como um meio de afirmar o poder sobre os mais fisicamente ou socialmente poderosos.[4] Essas crenças xamanísticas teriam evoluído para o politeísmo, em seguida para o henoteísmo e, eventualmente, para o monoteísmo. A Escola baseou sua visão na semelhança religiosa de culturas antigas e procurou encaixar todos os dados em um paradigma linear, evolutivo. Dentro desse paradigma, as narrativas do Gênesis tornaram-se “apenas” mais um mito ao lado dos mitos de outras culturas antigas. No início do século 20, os estudiosos começaram a criticar o quanto exatamente certas crenças se encaixam dentro desse paradigma. Eventualmente, a visão acadêmica predominante se desviou do modelo linear, embora a interpretação da narrativa do Gênesis “apenas” como mais um mito da criação continue a prevalecer.

A razão disso?  Há semelhanças óbvias entre Gênesis e outras histórias antigas e modernas das origens. Os estudiosos que mantêm esse ponto de vista têm apresentado as semelhanças como as características mais essenciais do Gênesis e as diferenças como aspectos secundários e não essenciais das narrativas. Mas e se isso for um equívoco? E se as diferenças forem os aspectos essenciais no Gênesis e na visão de mundo do Antigo Testamento? E se Gênesis e outras histórias do Antigo Oriente forem semelhantes da mesma maneira que minha minivan KIA e uma Ferrari são semelhantes? “Ei, ambas têm rodas e um volante, portanto a Ferrari é ‘apenas’ um outro tipo de carro. Quer trocar?” Parece-me que em Gênesis, como na venda de automóveis, as diferenças são muito mais significativas do que as semelhanças.

John Oswalt, professor de Hebraico e Estudos do Velho Testamento no Seminário Teológico de Asbury fez essa defesa recentemente em seu livro “The Bible Among the Miths” (A Bíblia entre os Mitos). Ele baseia-se em trabalhos mais antigos de G. E. Wright, da Universidade de Harvard, para apresentar sua tese, alegando que o trabalho de Wright ainda permanece como uma crítica eficiente da visão predominante.[5] Uma vez que os dados do Oriente Antigo não se alteraram significativamente em quase 70 anos, Oswalt afirma que a principal razão por trás da persistência da visão reducionista não são os dados em si mas “convicções teológicas e filosóficas anteriores”, sustentadas por aqueles que militam nesse campo.[6] O livro é dividido em duas seções: a primeira discute a Bíblia e o gênero dos mitos antigos, e a última discute a escrita da Bíblia e da história antiga. Embora ambos os temas sejam altamente relevantes para a apologética cristã, este último tem sido mais plenamente abordado em outros lugares e, assim, este artigo, em grande parte, se concentrará na primeira seção e suas implicações para a tarefa apologética.[7]

A primeira seção faz uma boa introdução para os vários significados contemporâneos de mito: o sentido etimológico, que salienta a “falsidade da coisa que está sendo descrita”;[8] sociológico, que destaca se o grupo vê ou não algo como verdade, mas ignora ou não se a coisa é realmente verdade; literário, que significa simplesmente uma certa maneira de escrever; fenomenológico, que destaca as características comuns dos escritos que têm sido chamado de mitos. Oswalt passa a maior parte de sua escrita neste último significado, pois este é o sentido frequentemente utilizado em estudos bíblicos. Ele mostra que os defensores dessa visão procuram definir mito como aquilo que busca relacionar o natural com o humano, o ideal com o real, o pontual com o contínuo. Após a análise desses pontos de vista, ele conclui, mostrando que um dos aspectos essenciais de definições descritivas ou fenomenológicas do mito é o que ele chama de “continuidade” ou “correspondência”; “que todas as coisas são contínuas umas com as outras”.[9]

Este pressuposto central de continuidade explica a quase universal atribuição antiga de características humanas ao mundo natural. Ele explica o quadro cíclico através do qual a maior parte do mundo antigo via a realidade, para não mencionar a crença de que a reconstituição dos mitos traz satisfação presente para aqueles que o reconstituem. Após esta análise, Oswalt faz esta afirmação provocativa sobre a relação da Bíblia com esse mundo dos mitos:

Assim, o mito é uma forma de expressão, seja literária ou oral, em que as continuidades entre os reinos humano, natural e divino são expressas e concretizadas. Ao reforçar essas continuidades, o mito busca assegurar o funcionamento ordenado da natureza e da sociedade humana. O fato é que a Bíblia tem um entendimento completamente diferente da existência e das relações desses reinos. Como resultado, ela funciona de forma inteiramente diferente. Suas narrativas não convertem a realidade divina contínua fora do mundo invisível real em uma reflexão visível desta realidade. Pelo contrário, são um ensaio dos atos não repetíveis de Deus em um tempo e espaço identificável, em concerto com os seres humanos…Sua finalidade é provocar escolhas e comportamentos humanos por meio da memória. Nada poderia estar mais longe do propósito de um mito. O que quer que seja a Bíblia, verdadeira ou falsa, ela não é mito.

Oswalt não acredita que a visão reducionista da Bíblia pode ser mantida, e argumenta apaixonadamente contra a ideia de ver a Bíblia como apenas mais um mito, primeiramente por descrever a perspectiva de continuidade que subjaz a outras literaturas do Antigo Oriente Próximo. Oswalt define a continuidade subjacente aos mitos como “a idéia de que todas as coisas que existem são partes umas das outras…sem distinções fundamentais entre os três reinos: a humanidade, a natureza e o divino.”[10] Tudo coexiste nessa visão de mundo. Os ídolos são símbolos dos deuses, mas, em um sentido muito real, são os deuses. Tempestades são a ação dos deuses. A reconstituição sexual humana da suposta atividade sexual dos deuses inspira a produção agrícola na realidade. Cada reino é contínuo e conectado. Nesta visão de mundo “o criador de mitos racionaliza da realidade dada para o divino”.[11]

Oswalt dá uma variedade de características comuns de uma visão de mundo fundada na continuidade. Primeiro, essa visão enfatiza a realidade presente em detrimento do passado e do futuro. As histórias das origens não são contadas para enfatizar o que aconteceu, em si, mas para explicar a situação atual com sua complexidade de relações. Segundo, ela confunde a imagem e o real. Assim, o deus por trás do ídolo se confunde com a manifestação do deus na imagem do(s) ídolo(s). A fonte unificadora divina por trás dos deuses não pode ser facilmente distinguida da manifestação dos deuses. Terceiro, ela enfatiza símbolos naturais. A partir de uma perspectiva de continuidade, isto faz sentido, já que o que acontece na natureza representa e afeta tanto a esfera humana como a divina. Quarto, ela valoriza a magia. Oswalt define magia como a capacidade de “realizar algo no reino divino, […] fazendo uma coisa semelhante no reino humano”.[12] Nesta perspectiva, a prostituição no culto dos povos do Antigo Oriente é uma afirmação teológica sobre a natureza da realidade. A ação sexual humana produzia prole e, em uma visão de mundo de continuidade, tal ação teria sido pensada para inspirar a ação sexual da divindade a fim de produzir a colheita. Finalmente, uma visão de mundo de continuidade inerentemente nega os limites. Uma vez que tudo se conecta e está inter-relacionado, não se pode esperar encontrar limites distintos entre as coisas. Portanto, não é surpresa encontrar prostituição, bestialidade, incesto e outros tipos de comportamento sexual, já que essa perspectiva inerentemente rejeita os limites.

Com base nessas características subjacentes a uma visão de mundo de continuidade, Oswalt apresenta as seguintes características do mito, tanto como deduções lógicas dessa cosmovisão quanto como características comuns de mito do Antigo Oriente: o politeísmo, a idolatria, a eternidade da matéria caótica, uma negação da personalidade individual, uma baixa visão do divino e do humano, a visão de conflitos como uma fonte de vida, a não existência de um padrão único para a ética e um conceito cíclico da existência. Cada uma destas características provém claramente dos pressupostos subjacentes citados acima. Oswalt deixa claro que essa perspectiva não era apenas típica do Antigo Oriente, mas quase universal, incluindo os gregos e os romanos, os hindus e várias outras religiões asiáticas. Ele afirma que se “o homem pode descobrir a realidade última através da extrapolação de sua própria experiência… [então ele vai chegar], por todo o mundo, a um entendimento muito semelhante da realidade”. [13] Neste ponto, deve ficar claro que essas perspectivas não são universais, e as exceções são óbvias: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, cada qual a sustentar um entendimento radicalmente diferente da realidade. Mas de onde vem esse entendimento, senão de sua fonte de literatura comum, ou seja, a Bíblia hebraica?

Neste ponto, eu tenho que admitir um preconceito pessoal em favor da perspectiva de Oswalt. Sempre que começava a fazer estudos bíblicos, eu o fazia em uma conceituada universidade protestante. Os professores falavam de Gênesis como sendo mítico e compartilhando incontáveis características com os mitos do Antigo Oriente. Dessa forma, eu assumi a verdade de suas declarações. Eu devo admitir, porém, que foi chocante quando realmente comecei a ler a literatura do Antigo Oriente. As diferenças eram profundas e muitas das semelhanças sugeridas pareciam ad hoc. Considerando que eu podia entender algumas dessas semelhanças como polêmicas veladas contra outras literaturas do Antigo Oriente, ver as narrativas do Gênesis como uma progressão originária destes escritos parecia (e continua a parecer) impossível. Por quê? Oswalt faz um trabalho maravilhoso ao delinear a perspectiva do Velho Testamento sobre as origens, para mostrar o quão distinta é essa visão de mundo em comparação com a visão de mundo de outros escritos do Antigo Oriente.

Considerando que os mitos do Antigo Oriente projetam uma visão de mundo de continuidade, Oswalt argumenta que a Bíblia apresenta uma visão de mundo de transcendência e de revelação. Ele enumera as características comuns do “pensamento bíblico” como o monoteísmo, a iconoclastia, a prioridade espiritual sobre o material, uma criação através de processo, uma visão elevada de Deus e da humanidade, uma visão redefinida da ética sexual (dessacralização), a proibição de magia, uma demanda por obediência ética e a importância da interação de Deus com a humanidade na história. Claramente, estas distinções são incompatíveis com a visão de mundo de continuidade descrita acima. Cada uma delas decorre do pressuposto básico de que há um Deus transcendente, fora e além da criação, o que alguns teólogos chamam de distinção Criador-criatura. Esse Deus não pode ser manipulado por magia, nem pode ser representado por qualquer coisa dentro de Sua criação quer seja um ídolo quer seja a própria natureza. Se ele se revelar, seus comandos serão inalteráveis e definirão os limites para a existência dentro da criação, etc. Uma vez que a Bíblia hebraica fortalece essa visão de mundo, não é surpreendente ver que idéias típicas do Antigo Oriente, como o culto da fertilidade, a idolatria e a divindade de coisas finitas sejam totalmente rejeitadas.

Quais são as implicações dessas distinções de Oswalt para a apologética cristã? Primeiro, chamar as narrativas do Gênesis de mito requer redefinir o termo “mito” de uma forma que o torna de nenhum valor. Em segundo lugar, isso significa que as diferenças entre a Bíblia e os mitos do Antigo Oriente são mais relevantes do que as semelhanças. Oswalt mostra que há muitas semelhanças, mas há descontinuidade na forma como estas formas, ideias semelhantes são usadas entre a Bíblia hebraica e literatura do Antigo Oriente. Ele diz: “[a Bíblia] não é única porque não faz parte do seu mundo, nem é única porque seus escritores eram incapazes de relacionar aquilo que eles dizem com seu mundo… Ao contrário, ela é única justamente porque, sendo uma parte de seu mundo e utilizando conceitos e formas de seu mundo, pode projetar uma visão da realidade diametralmente oposta à visão desse mundo”.[14]

Fonte: G. Kyle Essary é apaixonado pelo estudo das Escrituras, especialmente do Antigo Testamento. Ele e sua família vivem no sudeste da Ásia, onde se esforçam para servir Àquele para quem o Antigo Testamento aponta.
(Apologetics315)
[1] Há uma série de livros que desconstroem este tipo de reducionismo, alguns remontando ao início do século 20, como os clássicos The Everlasting Man, de G. K. Chesterton, e The Abolition of Man, de C. S. Lewis. Contribuições mais recentes têm praticamente eliminado qualquer plausibilidade do autêntico reducionismo materialista. Ver, por exemplo, Mind and Cosmos, de Thomas Nagel ou Darwin’s Pious Idea, obra magistral de Conor Cunningham. Um de meus favoritos é Life is a Miracle, de Wendell Berry.
[2] Postagem no blog de Rachel Held, “Can God Speak Through Myth?” (Pode Deus falar através de mito?), encontrada em: http://rachelheldevans.com/blog/bible-myth
[3] Peter Enns era abertamente evangélico no momento da publicação de seu livro, mas desde então tem adotado uma postura mais agnóstica em relação a muitas doutrinas evangélicas, rejeitando outras. Seu ponto de vista atual parece ser melhor definido como pós-evangélico, embora tal classificação seja bastante abrangente.
[4] O pensamento seguiu em grande parte a perspectiva conjecturada de Nietzsche em On the Genealogy of Morality (Sobre a genealogia da moral). Para a Escola, e para Nietzsche, as origens da religião e da moralidade dos escravos estão intimamente ligadas.
[5] O livro de Wright The Bible Against Its Environment (A Bíblia contra seu ambiente) critica a idéia evolutiva, defendendo a unicidade do texto bíblico e sua visão de mundo contra outras literaturas e perspectivas do Antigo Oriente Próximo.
[6] João Oswalt, The Bible among the Myths (A Bíblia entre os mitos), Kindle ed. HarperCollins, 2010, loc. 101. As histórias de criação do Antigo Oriente Próximo da “biblioteca” ugarítica foram encontradas principalmente entre 1928 e 1958; o Enuma Elish foi encontrado em 1849, assim como também o Atrahasis; a Epopeia de Gilgamesh, em 1853, com muitas das histórias egípcias sendo conhecidas ainda mais cedo.
[7] Uma contribuição recente que vale a pena ler é Do Historical Matters Matter to Faith? (Questões históricas importam para a fé?),  editado por James Hoffmeier e Dennis Magary.
[8] Oswalt, loc. 406.
[9] Ibid., loc. 579.
[10] Ibid., loc. 660.
[11] Ibid., 700.
[12] Ibid., 782.
[13] Ibid., loc. 893. Alguns têm argumentado recentemente que o ateísmo contemporâneo também se encaixa neste paradigma contínuo, onde a matéria é eterna e caótica (sem finalidade última originária, como uma bolha no vácuo quântico), e os poderes da realidade são reduzidos às forças brutas da natureza. Ver este artigo recente de Ben Suriano, On What Could Rightly Pass for a Fetish (Sobre o que poderia passar certamente por um fetiche), encontrado em http://theotherjournal.com/2008/08/19/on-what-could-quite-rightly-pass-for-a-fetish-some-thoughts-on-whether-“every-christian-should-‘quite-rightly-pass-for-an-atheist’”/
[14] Ibid., loc. 1700.
Publicado em ciência, Livros, Pensamentos, Perguntas e Respostas, Pesquisas, Reflexões

Livro do Mês: Por que Creio, de Michelson Borges

O livro do mês é Por Que Creio, do jornalista Michelson Borges (já sorteamos um aqui, há exatamente um ano; este novo exemplar vai autografado pelo Michelson). Para participar do sorteio, basta seguir @Ler _pra_crer no Twitter e retuitar: ” Sorteio Livro do Mês: Por Que Creio, de Michelson Borges (autografado). Siga @Ler_pra_crer dê RT http://kingo.to/1fMR ” O sorteio será realizado dia 4/3, depois das 22 horas. Boa leitura!

O livro reúne 12 entrevistas com pesquisadores nas áreas de Biologia, Engenharia, Bioquímica, Arqueologia, Física, Geologia, Teologia e Matemática – todos falando da razão que têm para acreditar no Criador do Universo. Ruy Vieira, Marcia de Paula, Paulo Bork, Nahor Jr., Urias Takatohi, Siegfried Schwantes, Euler Bahia, Queila Garcia, Rodrigo Silva, Orlando Ritter e Michael Behe são os entrevistados.

Algumas das perguntas respondidas no livro:

É possível harmonizar fé e ciência?

É possível ser evolucionista e crer na Palavra de Deus?

Quais são as maiores evidências do Criador?

Que áreas da pesquisa científica oferecem maiores dificuldades para o criacionista?

Além da Bíblia, existem outros documentos que mencionam o Dilúvio?

Quais são as maiores evidências de que o homem foi criado por Deus?

Pode-se aceitar a teoria do Design Inteligente como puramente científica, sem apelar para a religião?

O trecho que segue é do próprio Michelson e faz parte do último capítulo, intitulado “Digitais do Criador”:

“Não há prazer mais complexo que o de pensar”, já dizia o poeta e escritor argentino Jorge Luís Borges. De fato, o aparentemente simples processo do pensamento é algo de complexidade espantosa. Nosso corpo é controlado e coordenado por trilhões de células nervosas, nove bilhões das quais situada no córtex cerebral. Se elas fossem alinhadas ponta a ponta, sua extensão atingiria mais de 75 quilômetros! Tudo isso é coordenado por 120 trilhões de “caixas de conexão”. Esse intricado sistema é compactado em um insondável complexo de caminhos neurais. A tarefa de contar cada terminação nervosa do cérebro à velocidade de uma por segundo levaria 32 milhões de anos!

Impulsos nervosos se deslocam a velocidade altíssimas nas fibras nervosas para transmitir informações a cada ponto do corpo. O sistema é semelhante a uma nação moderna interconectada por bilhões de fios telefônicos. Essa imensa rede de comunicações recebe ou emite 100 milhões de impulsos eletroquímicos por segundo. Ela está conectada a cada milímetro quadrado da pele, a cada músculo, vaso sanguíneo, osso ou órgão. E tudo isso através da medula e do cérebro, que pesa cerca de 1,5 quilo e, no entanto, consome sozinho mais de 20% da energia requerida pelo corpo.

Pense na batida inconsciente do coração, nas pálpebras piscando, na respiração contínua dos pulmões, nos alimentos sendo processados pelos intestinos, numa perna que se  move. Tudo isso é organizado e dirigido pelo cérebro.  Pense nas emoções, na atração sexual, no amor entre pais e filhos, nos sonhos e pensamentos. Eles também são produtos do cérebro. Sua missão mais elementar é recolher estímulos externos, captados pelos sentidos, e transformá-los em impulsos elétricos que percorrem os neurônios. Toda essa informação é catalogada e arquivada na memória. É a ela que o cérebro recorre quando precisa tomar decisões, comandar os movimentos corporais e organizar o pensamento.

Neste exato momento, seu sistema nervoso está processando uma série de informações ao mesmo tempo: a interpretação destas palavras, a textura do papel deste livro, os sons de fundo no ambiente, os odores etc. E você quase nem percebe isso.

O profundo e novo conhecimento sobre o cérebro, adquirido em grande escala nos anos recentes, mostra que esse órgão foi maravilhosamente projetado, e capacitado além das maravilhas que a imaginação ignorante lhe atribuía. Num questionamento bastante simplista, seria possível uma mera combinação acidental de massa, energia, acaso e tempo produzir órgão tão maravilhoso e complexo?

Por inspiração, o rei Davi escreveu palavras há três mil anos, que não podem ser superadas: “Pois Tu formaste o  meu interior, Tu me teceste no seio de minha mãe. Graças Te dou, visto por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as Tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem” (Salmo 139:13 e 14).

Publicado em ciência, Reflexões

A Arqueologia, a Bíblia e o Argumento do Silêncio

Por muito tempo, Pôncio Pilatos foi considerado uma figura não histórica pelos que rejeitam o testemunho bíblico. Achados arqueológicos no início da década de 60, porém, confirmaram a historicidade do oficial romano como prefeito da Judéia. A ideia básica por trás de um argumento do silêncio (argumentum ex silentio) é a de que a ausência ou “silêncio” de algo demonstra a verdade de certa proposição ou conclusão (no caso de Pilatos, por exemplo, o raciocínio equivocado era: “se não há registro arqueológico de pessoa X, então essa pessoa nunca existiu, é um mito”). 

Como é possível construir virtualmente qualquer argumento baseado no silêncio, torna-se fácil e “conveniente” elaborar esse tipo de argumento nas mais variadas circunstâncias. Assim, no que se refere à Bíblia, nomes como Abraão, Davi, Salomão, Daniel, Belsazar e muitos outros – assim como cidades como Babilônia, Sodoma, Gomorra e até mesmo Nazaré – já foram e ainda são muitas vezes envolvidos, de alguma forma, em algum tipo de argumento do silêncio.

Um antigo editorial do Institute for Biblical Archeology revela, porém, por que, em se tratando da arqueologia – e especialmente da arqueologia bíblica -, o argumento do silêncio não se mostra uma boa ideia. 

                          ARGUMENTOS DE SILÊNCIO ARQUEOLÓGICO

A recente descoberta do Prof. Krahmalkov de listas-mapas egípcias que apoiam a precisão histórica do Êxodo e da Conquista de Canaã destruiu um argumento poderoso usado por “rejeicionistas” críticos da Bíblia contra a exatidão histórica do Antigo Testamento.

O argumento que esses críticos levantavam contra o Antigo Testamento era o de  que uma vez que não havia nenhuma evidência arqueológica para a existência de três principais cidades antigas [Dibom, Hebrom e Quisom] durante a última Idade do Bronze, então as histórias do Antigo Testamento de Moisés, Josué e Débora não eram historicamente corretas, um argumento baseado no “silêncio” arqueológico.
Krahmalkov mostrou, a partir de evidências epigráficas egípcias, que essas três cidades-chave antigas existiam durante a última Idade do Bronze [1560-1200 a.C].
A descoberta de Krahmalkov aponta para o perigo muito real de fazer afirmações com base em argumentos do silêncio arqueológico.

Os não-arqueólogos é que são freqüentemente mais impressionados com o silogismo arqueológico defeituoso usado por críticos da Bíblia como segue:

  • Nenhuma evidência arqueológica foi encontrada para um determinado período da história em um determinado sítio.
  • A Bíblia diz que este local foi habitado durante este mesmo período da história.
  • Portanto, a Bíblia é historicamente incorreta.

O maior problema com este silogismo defeituoso é a primeira proposição. A ausência de evidência arqueológica pode ser – e muito frequentemente é – causada por uma variedade de razões, não relacionadas ao fato histórico.

Primeiro, os arqueólogos só escavam uma área muito limitada de um sítio. Contrariamente à crença comum entre os leigos, mesmo a cidade antiga mais bem escavada teve menos de 5% de sua superfície explorada. E leva anos de trabalho – e, normalmente, várias equipes arqueológicas – para escavar esses 5%.

Se arqueólogos selecionam bem seus locais de escavação, eles podem obter muitas informações desses 5% que eles escavam. Mas, com 95% desses bem escolhidos lugares como Jericó, Jerusalém, Hazor e Hebrom ainda não escavados, é muito perigoso colocar muito peso sobre a ausência de informações arqueológicas de um determinado período. E a grande maioria dos sítios arqueológicos do Oriente não foram “bem escavados.”

Na verdade, a maioria dos sítios não têm tido nenhum trabalho arqueológico feito neles. Um arqueólogo estima que menos de 1/10 de um por cento dos estratos arqueológicos em locais arqueológicos conhecidos no Oriente Médio foi escavado. Outro arqueólogo afirmou em uma palestra, cerca de 8 anos atrás, que, no Iraque, 850 sítios antigos foram identificados. Segundo ele, desses 850 sítios, apenas 50 tinham qualquer tipo de escavação, boa ou ruim, em andamento. Dos 50 escavados, apenas 5 foram completamente escavados.
Três anos depois dessa palestra, os arqueólogos iraquianos encontraram 62 quilos de jóias de ouro em túmulos reais em uma das cinco cidades bem escavadas que tinha sido mencionada!!!!

Em outras palavras, um estrato pode parecer estar faltando em um sítio apenas porque o trabalho arqueológico nesse lugar ainda não foi concluído.

Segundo, há várias outras boas razões por que um estrato arqueológico pode estar ausente em um sítio de uma escavação, razões que nada têm a ver com a questão de povos antigos terem ou não realmente habitado um determinado sítio em um determinado período da história. Por exemplo, observe as seguintes razões por que um estrato pode estar faltando no sítio de uma escavação arqueológica em particular:

  • O foco da cidade pode ter se deslocado de um lado do sítio para outro, ou a cidade pode ter diminuído em tamanho por um período de tempo. Isto pode causar a falta de um estrato de um sítio em uma área e esse estrato ainda existir em outro sítio nessa mesma área.
  • A localização de uma cidade antiga pode ter mudado para outro local próximo. Por exemplo, a Jericó no Antigo Testamento, a Jericó do Novo Testamento e a Jericó moderna estão todas em locais diferentes na mesma área básica.
  • Construções posteriores em um campo podem destruir ou mover a evidência do estrato que falta. Cidades antigas eram frequentemente destruídas e reconstruídas. Antigos trabalhadores da construção civil  limpavam e nivelavam um sítio antes de reconstruí-lo. Consequentemente, material arqueológico completamente ausente em um sítio pode ser achado em abundância em outro sítio, que era usado como aterro. Este fato é bem conhecido dos arqueólogos.

E, terceiro, um estrato arqueológico pode também aparentar estar em falta no local de uma antiga cidade pelas seguintes razões adicionais:

  • A estratigrafia do local foi mal interpretada ou mal datada pelos arqueólogos. Alguns arqueólogos muito influentes no passado fizeram isso com os estratos que encontraram. Embora isso seja menos comum hoje em dia, continua ainda a ser um problema. Observe, por exemplo, o erro de datação de Kathleen Kenyon em relação aos estratos de Jericó. Também deve ser notado que as ideologias e teorias continuam a desempenhar papéis importantes na datação de estratos.
  • O campo foi mal identificado. Há muito poucos mapas antigos, dando a localização exata das cidades antigas. Não é incomum que arqueólogos modernos discordem sobre a identificação de um determinado campo. A identificação de alguns locais muito importantes – a cidade bíblica de Ai, por exemplo – é ainda altamente debatida.

Qualquer uma das razões dadas acima pode explicar por que um estrato está faltando no local de uma determinada escavação. Uma vez que estes fatos são bem conhecidos dos arqueólogos, estudiosos da Bíblia e historiadores, é hora de parar de basear conclusões supostamente acadêmicas em argumentos baseados no silêncio arqueológico. Argumentos baseados no silêncio arqueológico são, na melhor das hipóteses, muito fracos; na pior das hipóteses, beiram a desonestidade intelectual.

Extraído de ARCHEOLOGY NEWS DIGEST (IBA)
Leia mais sobre a Arqueologia e a Bíblia (Dr. Rodrigo Silva) aqui.
Publicado em ciência, Conferências, Notícias, Pesquisas

A Realidade sobre o Fragmento Copta “Esposa de Jesus”: Fatos, Probabilidades e Possibilidades

Houve um grande alvoroço em torno do fragmento copta recém-descoberto, ou melhor, recentemente anunciado, que fala de Jesus como sendo casado.

[…] Mas, no final das contas, o que temos de concreto?

Seguem alguns fatos, algumas probabilidades e algumas possibilidades.

Os Fatos

1. A professora Karen King, da Harvard Divinity School, apresentou um trabalho na Associação Internacional de Estudos Coptas em Roma, na terça-feira, 18 de setembro, tornando público um fragmento de papiro que afirmava explicitamente que Jesus tinha uma esposa. Ela teve acesso a esse fragmento por meio de um proprietário anônimo, que lhe deu permissão para publicar o texto.
2. O fragmento está escrito em copta saídico,  uma língua antiga que tem raízes no século III d.C. O saídico é o dialeto mais antigo da língua copta.
3. O papiro foi usado como um meio de escrita até o século VII; por isso, se autêntico, este fragmento deve ser datado entre o terceiro e sétimo século d.C.
4. Ele menciona especificamente ‘Jesus’ pelo nome duas vezes, e faz isso de uma forma a indicar que a referência é, de fato, a Jesus de Nazaré. Isso é evidente pelo fato de que o nome  ‘Jesus’ é escrito como um nomen sacro – ou  nome sagrado – à maneira de todos os manuscritos gregos do Novo Testamento, como uma abreviatura. Na segunda linha, do lado direito e abaixo, no meio da quarta linha, vemos o que parece ser “IC” em letras maiúsculas. Estas são as letras iota e sigma. Há uma linha acima das letras, indicando um nome sagrado. Esta linha supralinear indica que o leitor não deve interpretar isso como uma palavra, mas sim como uma abreviatura. Essa era a prática em cerca de 15 palavras diferentes nos manuscritos do NT, sendo  ‘Jesus’ uma das primeiras palavras abreviadas dessa maneira.
5. O fragmento é um retângulo bastante claro, com falta de texto em todos os quatro lados. A parte superior do fragmento parece cortado de maneira especialmente clara, sendo quase uma linha reta. Isto é bastante atípico para papiros antigos e pode ter implicações na forma como devemos analisá-lo.
6. Jesus definitivamente diz “minha esposa” no fragmento. Ele também diz: “Minha mãe me deu a vida” e “ela será capaz de ser meu discípulo.” O antecedente de “ela” não é claro, mas provavelmente se refere à  “esposa” mencionada na seção anterior.
7. Embora a professora King tenha dado ao fragmento o nome de “O Evangelho da esposa de Jesus”, isso é intencionalmente provocativo. Simplesmente não há material suficiente (oito linhas no anverso, algumas palavras visíveis no verso) para chamá-lo de alguma forma um evangelho, e muito menos o evangelho da esposa de Jesus! Seria mais correto chamá-lo de “O Fragmento sobre relações de Jesus” (por isso o comentário anônimo postado no site da Tyndale House [Cambridge], na quarta-feira, setembro 19, 2012), já que não há provas de que ele é um evangelho e pelo menos dois membros da família são mencionados (a esposa de Jesus e a mãe de Jesus).
8. A escrita não é nem literária (feita por um escriba profissional) nem mesmo documentária. Nem sequer parece ter sido feita com um stylus (estilete ou “caneta”), já que é muito grosseira. Em vez disso, parece ter sido “pincelada”. Exemplos paralelos disso não são facilmente encontrados nos escritos coptas de qualquer período.
9. Será que este fragmento prova que Jesus foi casado? A resposta é um enfático não. No máximo, ele só pode nos dizer o que um grupo de “cristãos” (entre aspas) no meio do século II pensava. Mas não diz nada sobre a história verdadeira, sobre Jesus de Nazaré.
10. O fragmento tem semelhanças com o Evangelho de Tomé (apócrifo), que a maioria dos estudiosos data como sendo de meados do século II. A citação do Evangelho de Tomé, 114, é especialmente parecida com partes do texto do fragmento, o mesmo ocorrendo com outra seção do mesmo evangelho (101).  Evangelho de Tomé, 101: “Minha mãe me deu a vida verdadeira”; fragmento, anverso, linha 1: “Minha mãe me deu a vida”. Evangelho de Tomé,  114: “Simão Pedro disse-lhes:” Que Maria saia de nosso meio, pois as mulheres não são dignas da Vida “; fragmento, anverso, linha 3: “Maria é digna dela”. Mas o que deve ser mantido em mente é que no Evangelho de Tomé, 114, Jesus continua: “Eis que vou guiá-la para fazê-la macho, para que ela se torne também espírito vivo semelhante a vós, machos.”  O que quer que isto signifique, é pouco provável que seja um endosso de casamento ou até mesmo de mulheres como mulheres. A afirmação do Evangelho de Tomé, 114, é, na verdade, uma declaração politicamente incorreta que ninguém deve abraçar hoje como representando a verdadeira fé cristã.
11. A proveniência, a história e a propriedade do fragmento são desconhecidas. Isso cria uma boa dose de desconfiança por parte da comunidade acadêmica quanto à sua autenticidade.

12. Segue o que diz o texto (as lacunas indicadas com colchetes):

Anverso:
 
1. “não [para] mim. Minha mãe me deu a vi[da…”
2. os discípulos disseram a Jesus: “[
3. negar. Maria é digna de… [alguns sugerem que o correto seria: “Maria não é digna de…]”
4. …” Jesus disse a eles: “Minha esposa… [
5. …ela  será capaz de se tornar um discípulo… [
6. Deixe os iníquos incharem… [
7. Quanto a mim, eu moro com ela de modo que… [
8. uma imagem [
 
Verso:
 
1. minha mã[e
2. três [
3. … [
4. Diante do qual …
5. traços de tinta ilegíveis
6. traços de tinta ilegíveis

13. Embora Maria (Madalena) seja mencionada na linha 3 e Jesus fale de “minha esposa” na linha 4, devido à  natureza fragmentada do Manuscrito não se pode determinar positivamente que Jesus está dizendo que Maria era sua esposa. Esta é uma inferência, e uma inferência provável, mas sem provas. A prova está nas porções de texto que ou não foram preservadas ou, mais provavelmente, foram cortadas por um revendedor moderno. As razões por que foram cortadas continua sendo uma questão especulativa (veja abaixo).

As probabilidades

1. Os quatro lados do fragmento sugerem que ele foi cortado desta forma, em tempos modernos, provavelmente pelo revendedor do fragmento, a fim de obter mais dinheiro de vários fragmentos recortados da mesma forma. Esta é a conclusão  a que chegou Roger Bagnall, da Universidade de Nova York. Mas isso levanta a questão: Foi este fragmento cortado por causa do resto do texto, que poderia dar um contexto em que a frase polêmica que fala da esposa de Jesus teria outro sentido que não o de  uma mulher literal? Dirk Jongkind da Universidade de Cambridge usou esta analogia como uma possibilidade: “Nós todos temos nossos exemplos favoritos daqueles sedutores anúncios publicitários da perfeita casa de férias, aqueles que conseguem fazer desaparecer aquela refinaria de petróleo no horizonte, as linhas de alta tensão, ou a rodovia que passa atrás da propriedade. Aqui temos um fragmento que foi deliberadamente alterado, ‘muito provavelmente’ por um revendedor moderno buscando maximizar o lucro, ao esconder ‘alguma coisa’.  E esta ‘coisa’ poderia muito bem estar para o fragmento como a refinaria de petróleo está para o anúncio:  pode ser um detalhe que afetava o valor deste fragmento negativamente. O fragmento pode ter sido recortado na forma como está agora a fim de induzir o leitor a uma determinada interpretação.” (postado no site The Evangelical Textual Criticism na quinta-feira, 20 de setembro de 2012).

2. A data atribuída ao papiro – século IV –  é em grande parte um palpite. Manuscritos coptas são notoriamente difíceis de datar. Roger Bagnall, da Universidade de Nova York, e AnneMarie Luijendijk, da Universidade de Princeton, têm defendido essa data e a autenticidade do documento. Scott Carroll, da Universidade de Oxford, data-o como sendo da primeira metade do século V, se se tratar de documento autêntico. Tem-se falado sobre o uso de carbono-14 para datar o fragmento com mais precisão, mas como o procedimento destruiria parte do texto, isso tem sido desencorajado.

No entanto, existe um método relativamente novo para datar manuscritos que é não-destrutivo. E não vi qualquer discussão sobre isso nos relatórios. Desenvolvido pelo Dr. Marvin Rowe, da A & M University, e seu assistente de doutorado, o professor Karen Steelman, o método utiliza uma câmara de plasma que não danifica o artefato. (Veja: Marvin W. Rowe and Karen L. Steelman, “Non-destructive 14C Dating: Plasma-Chemistry and Supercritical Fluid Extraction,” March 2010, ACS National Meeting 2010.)  Então, seria de fato possível obter uma data segura para este fragmento sem destruir nenhuma parte do texto. Seria interessante ver se a professora King e o proprietário anônimo permitiriam a utilização desse método para obter uma melhor correção na data e, especialmente, para dissipar quaisquer sugestões de inautenticidade.

3. Karen King disse que embora o fragmento seja do século IV, o texto é mais provavelmente de meados do século II, com base em idéias semelhantes que circulavam em textos gnósticos e outros. Mas isso é difícil de avaliar, especialmente porque quase nenhum contexto é dado para as palavras de Jesus, e nada se sabe sobre a origem do fragmento ou que outros manuscritos foram encontrados com ele.

As possibilidades

1. O manuscrito é uma farsa. O Dr. Christian Askeland, presente na conferência da Associação Internacional de Estudos Coptas em Roma, observou que cerca de dois terços dos participantes estavam muito céticos em relação a autenticidade do papiro, enquanto um terço estava “essencialmente convencido de que o fragmento é uma farsa.” Askeland disse não ter encontrado ninguém na conferência que considerasse o fragmento autêntico (publicado no site da crítica textual evangélica na quarta-feira, 19 de setembro, 2012). Isso presumivelmente não inclui a Professora King. Um relativo número de notáveis coptologistas julgaram-no um documento falso ou expressaram fortes reservas, incluindo Alin Suciu, da Universidade de Hamburgo, Stephen Emmel, da Universidade de Münster, Wolf-Peter Funk, da Universitade de Laval, em Quebec, Sadak Hany, Diretor-geral do Museu Copta do Cairo, Carroll Scott, bolsista sênior do Grupo de Pesquisa de Manuscritos, de Oxford, e David Gill, da Universidade de Suffolk.

2. Se o manuscrito for autêntico, o texto pode ser ou  a) não gnóstico, uma vez que contradiz a visão gnóstica básica do mundo material; b) gnóstico, embora com uma outra interpretação do casamento que não a ligação física entre um homem e uma mulher (no apócrifo Evangelho de Filipe, “a relação entre Jesus e Maria [Madalena] é uma alegoria da reunião da alma com Deus na câmara nupcial, isto é, a salvação”; o mesmo ocorre em outro apócrifo, o Evangelho de Maria [Simon Gathercole, da Universidade de Cambridge, em entrevista no site da Tyndale House/Cambridge, na quarta-feira, 19 de setembro de 2012]); c) ortodoxo, mas metaforicamente referindo-se à igreja como a esposa de Jesus (uma visão já afirmada no Novo Testamento – implícita em Efésios 5:23-27 e explícita em Apocalipse 19:7); d) proveniente de um grupo “cristão” derivado, que oferecia alguma reação contra o ascetismo crescente de ortodoxos no final do século II, quando o casamento foi um pouco mal visto, ou e) parabólico ou metafórico, com algum outro referente em mente.

3. Nem mesmo a professora King sugere que este fragmento significa que Jesus tivesse uma esposa (e King não é conhecida por suas posições conservadoras!): “Sua possível data de composição, na segunda metade do século II, argumenta contra o seu valor como evidência para a vida do Jesus histórico.” Se o fragmento remonta à tradição do segundo século, devemos ter em mente que há um mundo de diferença entre o Cristianismo apostólico do primeiro século e os vários grupos que se levantaram após esse período inicial.

Fonte: Daniel Wallace   – Daniel Wallace  é professor de Estudos do Novo Testamento no Dallas Theological Seminary e Diretor Executivo do Center for the Study of New Testament Manuscripts.
 
 
 
 
 
 
Publicado em ciência, Notícias, Pesquisas

Novas Descobertas Arqueológicas Confirmam Presença de Israel em Canaã

Hazor era uma antiga cidade israelense, localizada ao norte do Mar da Galileia, entre Ramá e Cades, no alto de uma colina. Suas ruínas já foram escavadas várias vezes desde 1955, quando foram encontradas por James Armand de Rothschild. Em 2005, o local foi declarado como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, juntamente com Megiddo e Beer-Sheba.

Essa antiga “capital” Cananeia tem cerca de mil anos de idade. Trata-se da maior cidade fortificada da região de Canaã, antes da chegada dos Israelitas, aproximadamente 1300 anos antes de Cristo.

Nos dias de Josué, em que os israelitas conquistaram Canaã, Hazor era conhecida como “a cabeça de todos os reinos”. Embora exista um grande número de arqueólogos questiona a historicidade da campanha de Josué, as evidências mais recentes apenas confirmam o relato bíblico.

Arqueólogos israelenses estão fazendo escavações em Tel Hazor, como é conhecida hoje, e acreditam ter encontrado fortes evidências sobre a presença de Israel naquele local.

Os pesquisadores conseguiram encontrar o que eles acreditam que seja do palácio real da época da conquista. Os arqueólogos descobriram uma sala no antigo palácio, com 14 potes de barros cheios de trigo queimado.

O processo de datação utilizado mostra que eles são aproximadamente da época da conquista israelita. O fato de o trigo estar queimado encaixa perfeitamente com o relato bíblico da conquista de Hazor, a única cidade Cananeia que os israelitas liderados por Josué destruíram com fogo.

Contrariando os arqueólogos que insistem que Hazor foi destruída pelos egípcios ou várias tribos que viviam perto do mar e os filisteus. Como os egípcios mantiveram registros detalhados das cidades que conquistaram, pode-se perceber que Hazor não aparece em nenhuma dessas listas. Nem os filisteus ou outros “povos do Mar” devem ter se aventurado muito longe da costa para fazer um ataque contra uma cidade. Ainda mais um local como Hazor, que além de ser distante do mar ficava em um terreno montanhoso.

Portanto, a maioria dos arqueólogos agora aceita que Hazor foi, de fato, destruída pelos israelitas, oferecendo grande legitimidade ao relato bíblico. Essas novas descobertas apenas parecem reforçar ainda mais tal posição.

Traduzido de Israel Today

Fonte Gospel Prime
Como publicado no MaegaphoneAdv  
Publicado em Livros, Pensamentos, Perguntas e Respostas, Pesquisas, Reflexões

A Confiabilidade Histórica do Evangelho de João: 59 Detalhes

O livro The Historical Reliability of John’s Gospel  (A Confiabilidade Histórica do Evangelho de João), de Craig Blomberg, examina o evangelho de João versículo por versículo e identifica uma abundância de fatos e detalhes históricos.
Alguns desses fatos e detalhes foram listados no livro Não Tenho Fé Suficiente para Ser Ateu, de Norman Geisler e Frank Turek, como segue (págs. 196-198).
Uma quantidade bastante grande de detalhes historicamente confirmados ou historicamente prováveis estão contidos no evangelho de João. Muitos desses detalhes foram confirmados como históricos por arqueólogos e/ou escritores não-cristãos, e alguns deles são historicamente prováveis porque muito dificilmente seriam invenções de um escritor cristão. Esses detalhes iniciam-se no segundo capítulo de João e compõem a lista a seguir:

1. A arqueologia confirmou o uso de jarros de água feitos de pedra nos tempos do Novo Testamento (João 2:6);

2. Dada a antiga tendência cristã ao ascetismo, é muito pouco provável que o milagre do vinho seja uma invenção (João 2:8); [Observação deste blog: neste ponto, defendemos que o vinho oferecido por Cristo não era fermentado]

3. A arqueologia confirma o lugar correto do poço de Jacó (João 4:6);

4. Josefo (História da guerra judaica 2.232) confirma que havia hostilidade significativa entre judeus e samaritanos durante os tempos de Jesus (João 4:9);

5. O termo “desce” (RA e RC) descreve com precisão a topografia da Galiléia ocidental (existe uma queda significativa da elevação de Caná para Cafarnaum; João 4:46,49,51);[1]

6. O termo “subiu” descreve perfeitamente a subida a Jerusalém (João 5:1);

7. A arqueologia confirma a correta localização e a descrição de cinco entradas no tanque de Betesda (João 5:2). Escavações realizadas entre 1914 e 1938 revelaram o tanque, e ele era exatamente como João o havia descrito. Uma vez que essa estrutura não mais existia depois de os romanos terem destruído a cidade no ano 70 d.e, é improvável que qualquer outra testemunha não ocular pudesse tê-lo descrito com tal nível de detalhes. Além do mais, João diz que essa estrutura “está” ou “existe” em Jerusalém, implicando que está escrevendo antes do ano 70);

8. É improvável que o fato de o próprio testemunho de Jesus não ser válido sem o Pai seja uma invenção cristã (João 5:31); o redator posterior desejaria muito destacar a divindade de Jesus e provavelmente faria que seu testemunho fosse autenticado por si mesmo;

9. O fato de as multidões quererem fazer Jesus rei reflete o bastante conhecido fervor nacionalista de Israel do século I (João 6:15);

10. Tempestades repentinas e severas são comuns no mar da Galiléia (João 6:18);

11. A ordem de Cristo para que comessem sua carne e bebessem seu sangue não seria inventada (João 6:53);

12. É improvável que a rejeição a Jesus por parte de muitos de seus discípulos também seja uma invenção (João 6:66);

13. As duas opiniões predominantes sobre Jesus — uma de que ele é “um bom homem” e outra de que ele “está enganando o povo” — não seriam as duas opções que João escolheria se estivesse inventando uma história (João 7:12); um escritor cristão posterior provavelmente teria inserido a opinião de que Jesus era Deus;

14. É improvável que a acusação de Jesus estar possuído por demônios seja uma invenção (João 7:20);

15. O uso do termo “samaritano” para ofender Jesus encaixa-se na hostilidade entre judeus e samaritanos (João 8:48);

16. É improvável que o desejo dos judeus que haviam crido nele de apedrejá-lo seja uma invenção (João 8:31,59);

17. A arqueologia confirma a existência e a localização do tanque de Siloé (João 9:7);

18. Ser expulso da sinagoga pelos fariseus era um temor legítimo dos judeus. Perceba que o homem curado professa sua fé em Jesus somente depois de ter sido expulso da sinagoga pelos fariseus (João 9:13-39), momento em que ele não tinha mais nada a perder. Isso transpira autenticidade;

19. O fato de o homem curado chamar Jesus de “profeta’, e não outra designação mais elevada, sugere que o incidente é uma história sem retoques (João 9:17);

20. Durante uma festa no inverno, Jesus caminhou pelo Pórtico de Salomão, que era o único lado da área do templo protegido do vento frio vindo do leste durante o inverno (João 10:22,23); essa área é mencionada diversas vezes por Josefo;

21. Três quilômetros (15 estádios) é a distância exata entre Betânia e Jerusalém (João 11:18);

22. Devido à animosidade posterior entre cristãos e judeus, é improvável que a descrição de que os judeus confortaram Marta e Maria seja uma invenção (João 11:19);

23. Os panos usados para sepultar Lázaro eram comuns nos sepultamentos judaicos do século I (João 11:44); é improvável que um autor ficcional incluísse esse detalhe irrelevante no aspecto teológico;

24. A descrição precisa da composição do Sinédrio (João 11:47): durante o ministério de Jesus, ele era composto basicamente pelos principais sacerdotes (em grande parte saduceus) e pelos fariseus;

25. Caifás realmente era o sumo sacerdote naquele ano (João 11:49); aprendemos com Josefo que Caifás permaneceu no ofício entre 18 e 37 d.C.;

26. A pequena e obscura vila de Efraim (João 11:54), perto de Jerusalém, é mencionada por Josefo;

27. A limpeza cerimonial era comum na preparação para a Páscoa (João 11:55);

28. Às vezes os pés de um convidado especial eram ungidos com perfume ou óleo na cultura judaica (João 12:3); é improvável que o ato de Maria em secar os pés de Jesus com os cabelos seja uma invenção (isso poderia facilmente ter sido visto como uma provocação sexual);

29. A agitação de ramos de palmeiras era uma prática judaica comum para celebrar as vitórias militares e dar boas-vindas aos governantes nacionais (João 12:13);

30. A lavagem dos pés na Palestina do século I era necessária por causa da poeira e dos calçados abertos. É improvável que o relato de Jesus executando essa tarefa tão servil seja uma invenção (essa é uma tarefa que nem mesmo os escravos judeus eram obrigados a fazer) (João 13:4); a insistência de Pedro para que recebesse um banho completo também se encaixa com sua personalidade impulsiva (certamente não havia propósito em inventar esse pedido);

31. Pedro faz um sinal a João para que este faça uma pergunta a Jesus (João 13:24); não há razão para inserir esse detalhe se ele fosse uma ficção, pois o próprio Pedro poderia ter feito a pergunta diretamente a Jesus;

32. É improvável que a frase “o Pai é maior do que eu” seja uma invenção (João 14:28), especialmente se João quisesse produzir a divindade de Cristo (como os críticos afirmam que ele fez);

33. O uso de vinho como uma metáfora tem sentido em Jerusalém (João 15:1); os vinhedos estavam na proximidade do templo, e, de acordo com Josefo, os portões do templo tinham uma vinha dourada entalhada neles;

34. O uso da metáfora do nascimento de uma criança (João 16:21) é plenamente judaico; foi encontrado nos Manuscritos do mar Morto (lQH 11.9,10);

35. A postura-padrão judaica para as orações era olhar “para o céu” (João 17:1);

36. A confirmação de Jesus de que suas palavras vieram do Pai (João 17:7,8) não seria incluída se João estivesse inventando a idéia de que Jesus era Deus;

37. Nenhuma referência específica a uma passagem das Escrituras já cumprida é dada no que se refere à predição da traição de Judas; um escritor ficcional ou um redator cristão posterior provavelmente teria identificado os textos do AT aos quais Jesus estava se referindo (João 17:12);

38. É improvável que o nome do servo do sumo sacerdote (Malco) que teve sua orelha cortada seja uma invenção (João 18:10);

39. A correta identificação do sogro de Caifás, Anás, que foi o sumo sacerdote entre os anos 6 e 15 d. e. (João 18:13) — o comparecimento diante de Anás é crível por causa da ligação familiar e do fato de que os ex-sumos sacerdotes preservavam uma grande influência;

40. A afirmação de João de que o sumo sacerdote o conhecia (João 18:15) parece histórica; a invenção dessa afirmação não serve a propósito algum e exporia João a ser desacreditado pelas autoridades judaicas;

41. As perguntas de Anás em relação aos ensinamentos e aos discípulos de Jesus fazem sentido no aspecto histórico; Anás estaria preocupado com a possibilidade de um tumulto civil e uma diminuição da autoridade religiosa judaica (João 18:19);

42. A identificação de um parente de Malco (o servo do sumo sacerdote que teve sua orelha cortada) é um detalhe que João não teria inventado (João 18:26); ele não tem nenhuma importância teológica e apenas poderia afetar a credibilidade de João se estivesse tentando fazer uma ficção se passar por verdade;

43. Existem boas razões históricas para acreditar na relutância de Pilatos de lidar com Jesus (João 18:28): Pilatos precisava equilibrar-se numa linha muito tênue, mantendo felizes tanto os judeus quanto Roma; qualquer perturbação civil poderia custar-lhe a posição (os judeus sabiam de suas preocupações com uma competição quando o desafiaram, dizendo: “Se deixares esse homem livre, não és amigo de César. Quem se diz rei opõe-se a César” João 19:12; o filósofo judeu Fílon registra que os judeus fizeram uma pressão bem-sucedida sobre Pilatos de maneira similar para que tivessem suas exigências satisfeitas (A Caio 38.301,302);

44. Uma superfície similar ao Pavimento de Pedra foi identificada próxima da fortaleza de Antônia (João 19:13) com marcas que podem indicar que os soldados entretinham-se ali com jogos (como no caso de tirar sortes para decidir quem ficaria com as roupas de Jesus em João 19:24);

45. O fato de os judeus exclamarem “Não temos rei, senão César” (João 19:15) não seria inventado, dado o ódio judaico pelos romanos, especialmente se o evangelho de João tivesse sido escrito depois do ano 70 d.C. (isso seria o mesmo que os moradores de Nova York de hoje proclamarem “Não temos rei, senão Osama bin Laden!”);

46. A crucificação de Jesus (João 19:17-30) é atestada por fontes não-cristãs como Josefo, Tácito, Luciano e o Talmude  judaico;

47. As vítimas de crucificação normalmente levavam sua própria travessa  (João 19:17);

48. Josefo confirma que a crucificação era uma técnica de execução empregada pelos romanos (História da guerra judaica 1.97; 2.305; 7.203); além disso, um osso do tornozelo de um homem crucificado, perfurado por um prego, foi encontrado em Jerusalém em 1968;

49. É provável que a execução tenha acontecido fora da antiga Jerusalém, como diz João (João 19:17); isso garantiria que a cidade sagrada judaica não fosse profanada pela presença de um corpo morto (Dt 21:23);

50. Depois de a lança ter perfurado o lado de Jesus, saiu aquilo que parecia ser sangue e água (João 19:34). Hoje sabemos que a pessoa crucificada pode ter uma concentração de fluidos aquosos na bolsa que envolve o coração, chamada de pericárdio.[2] João não saberia dessa condição médica e não poderia ter registrado esse fenômeno a não ser que tivesse sido testemunha ocular dele ou tivesse acesso ao depoimento de uma testemunha ocular;

51. É improvável que José de Arimatéia (João 19:38), o membro do Sinédrio que sepultou Jesus, seja uma invenção;

52. Josefo (Antiguidades judaicas 17.199) confirma que especiarias (João 19:39) eram usadas em sepultamentos reais. Esse detalhe mostra que Nicodemos não estava esperando que Jesus ressuscitasse dos mortos e também demonstra que João não estava inserindo fé cristã posterior em seu texto;

53. Maria Madalena (João 20:1), uma mulher que fora possuída por demônios (Lucas 8:2), não seria inventada como a primeira testemunha do túmulo vazio. O fato é que as mulheres em geral não seriam apresentadas como testemunhas numa história inventada;

54. O fato de Maria confundir Jesus com um jardineiro (João 20:15) não é um detalhe que um escritor posterior teria inventado (especialmente um escritor buscando exaltar Jesus);

55. “Rabôni” (João 20:16), o termo aramaico para “mestre”, parece um detalhe autêntico porque é outra improvável invenção para um escritor tentando exaltar o Jesus ressurreto;

56. O fato de Jesus afirmar que ele está voltando “para meu Pai e Pai de vocês” (João 20:17) não se encaixa com um escritor posterior inclinado a criar a idéia de que Jesus era Deus;

57. O total de 153 peixes (João 21:11) é um detalhe teologicamente irrelevante, mas perfeitamente coerente com a tendência dos pescadores de quererem registrar e depois se gabar de suas grandes pescarias;

58. O medo dos discípulos de perguntarem a Jesus quem ele era (João 21:12) é uma trama improvável. Ele demonstra a natural surpresa humana diante do Cristo ressurreto e talvez o fato de que havia alguma coisa diferente em relação a seu corpo ressurreto;

59. A enigmática declaração de Jesus sobre o destino de Pedro não é clara o suficiente para tirar-se dela certas conclusões teológicas (João 21:18); então, por que João a inventaria? Isso é outra invenção improvável.

Quando reunimos o conhecimento que João tinha das conversas pessoais de Jesus a esses quase 60 detalhes historicamente confirmados e/ou historicamente prováveis, existe alguma dúvida de que João tenha sido uma testemunha ocular ou que, pelo menos, tenha tido acesso ao depoimento de testemunhas oculares? Certamente nos parece que é preciso ter muito mais fé para não acreditar no evangelho de João do que para acreditar nele.


[1] BARNETT, Is The New Testament Reliable?, p. 62.

[2] William D. EDWARDS, Wesley J. GABEL, Floyd E. HOSMER, “On the Physical Death of Jesus Chtist”, Journal of the American Medical Association 255, n. 11 (March 21, 1986): 1455-63.

Fonte: Truthbomb
Mais sobre o assunto no site do Dr. Craig Blomberg