Publicado em Comemorações, Livros, Reflexões, Testemunhos

Antes do “Filhinho, Dorme, Dorme em Paz.”

Logo depois que eu cheguei no colégio, chegou também um jovem da Bahia. Era o Jonas Monteiro de Souza. Ele tinha 18 anos de idade e era mais pobre do que eu. Possuía uma mala fabricada por ele e um boné que ele confeccionara de pêlo de gato-do-mato. Não tinha terno e nem roupa de cama. Mas o pior é que ele veio sem ser chamado.

Havia escrito diversas vezes pedindo uma vaga como aluno industriário, mas não recebia resposta. Então resolveu vir assim mesmo. O colégio não tinha vaga para ele, pois todas as vagas já estavam preenchidas. O diretor mandou-o embora, mas Jonas não tinha dinheiro para voltar. Pela fé, ele comprara a passagem para vir, pois tinha certeza de que seria aceito.

Resolveram dar um trabalho para ele até conseguir o dinheiro para voltar à Bahia. Acontece que ele fez o trabalho tão bem-feito e com tanta garra, que o professor Adolfo pediu ao diretor para aceitá-lo como industriário. Assim ele ganhou o estipêndio. Ao se matricular, fizeram um teste com ele e permitiram que ele começasse no sétimo ano complementar. Ele dominava bem o português e a matemática. Ele reivindicou ser da terra do grande Rui Barbosa. Creio que nós dois éramos os mais pobres que apareceram no colégio.

Ele terminou os seus estudos bem antes de mim. No namoro também passou na minha frente, pois namorou a filha da professora de português, e com ela se casou. Eu saí do colégio sem uma namorada.

Ele é o autor de dois hinos do Hinário Adventista, os números 90 e 451. E seu filho Ênio Monteiro de Souza é autor dos hinos 481, 487 e 580. O professor Jonas Monteiro, agora aposentado pelo governo, reside na cidade de Volta Redonda, RJ. Lecionou depois de aposentado aqui no IASP por algum tempo e fez o nosso hino oficial da Associação dos Obreiros Jubilados Adventistas de Hortolândia, tanto a letra como a música.

O que acabo de reproduzir é o relato do Pastor Geraldo Marski, retirado de sua meditação para os adolescentes Quando Tudo dá Certo, publicada em 2002, com inspiradoras histórias e episódios de sua vida e de amigos com quem conviveu ao longo dos muitos anos de estudo e de ministério (no livro, essa é a meditação do dia 16 de abril). Reproduzo esse relato como uma homenagem às nossas Mamães. Sim, porque um dos hinos de autoria do Jonas,  o de número 451 Recordação da Infância, que já foi tantas vezes cantado — e deve ter sido cantado hoje por muita gente com extrema emoção —, é justamente uma ode em homenagem às Mães:

Recordação da Infância

É doce agora relembrar os dias infantis

Em que a voz de minha mãe ouvia mui feliz: (coro)

………………..

Coro

Filhinho, dorme, dorme em paz;

Deus cuidará de nós.

Não chores mais e dorme bem,

Deus velará por nós.”

Sua fé me fez confiar em Deus,

Que não nos deixa a sós.

Apraz-me sempre repetir:

“Deus cuidará de nós.”

…………………

Tomando-me nos braços seus, bem junto ao coração,

Cantava para me aninar a maternal canção: (coro)

…………………

E quando estou em aflição, em desalento e dor,

Pareço ainda ouvir-lhe a voz dizer-me com amor: (coro)

Não só o hino, mas também a própria história vitoriosa do Jonas se torna uma homenagem, já que uma das maiores alegrias de uma mãe, se não a maior delas, deve ser ver manifesta nos filhos aquela influência para o bem e para a salvação que tanto lutam para imprimir neles quando ainda pequenos. Uma influência que pode ser tão duradoura quanto a eternidade.

Nesse dia, o pastor Marski concluiu sua meditação assim : Jonas Monteiro tinha a sorte e a felicidade de ter uma mãe cristã.