Publicado em Filosofia, Pensamentos, Pesquisas, Reflexões

O Pensamento Hebraico Comparado ao Grego

Na Antiguidade, dentre as várias cosmovisões existentes, duas, em especial, se destacavam. Grécia e Israel tinham modos bem distintos de pensar. É preciso admitir que os gregos deixaram uma herança muito rica para o Ocidente, nas artes, na ciência e na cultura. Sem eles, não seríamos o que somos hoje. No entanto, do ponto de vista religioso, a influência grega trouxe mais problemas do que vantagens. Se hoje temos tanta dificuldade para entender a Bíblia, em grande parte, isso se deve à nossa mente “helenizada” (é preciso lembrar que os autores bíblicos eram, em sua maioria, hebreus e que até o Novo Testamento, escrito em grego, reflete o modo hebraico de pensar). Daí a importância de entender mais a fundo a mentalidade hebraica antiga.Adotar uma perspectiva hebraica das Escrituras ajuda a entender o pensamento dos autores bíblicos?

O objetivo deste artigo é relacionar, de modo sucinto, algumas das principais nuances do pensamento hebraico, comparando-as ao pensamento grego, que, via de regra, é também o pensamento ocidental.

Vale lembrar que nem todos os gregos e hebreus pensavam de maneira idêntica. Havia, dentro de cada cultura, diferentes ramificações quanto à religião e à filosofia. As características abaixo representam cada modo pensar de forma geral, sem levar em consideração as diferentes subdivisões.

Concreto x abstrato

No idioma hebraico antigo (língua predominante do Antigo Testamento), ao contrário do grego, as ideias eram muito mais concretas do que abstratas. Até conceitos abstratos, como os sentimentos, costumavam ser associados a algo concreto.

Em hebraico, a palavra “ira” ou “raiva”, por exemplo, é ’af (Êx 4:14), a mesma que é usada para “nariz” ou “narinas” (Jó 40:24). Mas o que tem que ver nariz com raiva? Geralmente, quem fica com muita raiva respira de modo acelerado, e as narinas se dilatam. Talvez esse seja o motivo concreto por trás da relação entre as duas palavras.

Outro exemplo desse concretismo hebraico é a palavra “fé”, ’emunah (Hc 2:4), que em vez de significar apenas crença ou aceitação mental – como no grego –, expressa também qualidades como firmeza, fidelidade e estabilidade. Ter fé, na visão hebraica, é se firmar em Deus, como uma estaca fincada no chão (ver Is 22:23, onde “firme” vem do verbo’aman, a mesma raiz de ’emunah). Portanto, crer, do ponto de vista bíblico-hebraico, inclui também a ideia de se apegar a Deus e ser fiel.

Dinamismo x ócio

Na Grécia antiga, dava-se mais valor à falta de ocupação do que ao trabalho, principalmente entre os atenienses. Não ter que trabalhar e se dedicar apenas à contemplação e ao mundo das ideias era considerada a mais nobre das “atividades”. Já os hebreus eram um povo extremamente dinâmico e seu idioma refletia isso.

No português, como em outras línguas, o sujeito vem em primeiro lugar na frase, e o verbo, geralmente, é colocado logo em seguida. Exemplo: “Antônio obedeceu a seu pai.” Em hebraico, a ordem das palavras ficaria assim: “Obedeceu Antônio a seu pai.” Isso mostra o valor das ações para os hebreus.

Até substantivos que, para nós, não implicam necessariamente uma ação, para eles envolviam algum movimento. A palavra “presente” (ou “bênção”), berakah em hebraico (Gn 33:11), por exemplo, vem da raiz brk (“ajoelhar”), e significa “aquilo que se dá com o joelho dobrado”, fazendo referência ao costume de inclinar o corpo ao presentear alguém. A palavra “joelho”, berek (Is 45:23), por sua vez, significa, literalmente, “a parte do corpo que se dobra”.

O conceito hebraico de comunhão – “andar com Deus” (Gn 6:9; Mq 6:8) – também envolve movimento e significa manter um relacionamento constante com Ele. E a palavra “júbilo”,rwa‘ ou ranan (Sl 100:1; 149:5), significa “dar um grito retumbante de alegria”.

Para os hebreus, havia uma íntima relação entre aquilo que se fala e o que se faz. Entendia-se que a palavra de um homem deve corresponder às suas ações. Aliás, “palavra”, em hebraico, significa também “coisa” ou “ação”, dabar. Logo, dizer algo e não agir de acordo implicava mentira, falsidade.

Essência x aparência

Os gregos descreviam os objetos em relação à sua aparência. Os hebreus, ao contrário, consideravam mais a essência e função das coisas. Exemplo: Se nos mostrassem um lápis e nos pedissem para descrevê-lo, como seria nossa descrição? Provavelmente, diríamos: “O lápis é azul”, ou “é amarelo”; “tem ponta fina”, ou não; “é cilíndrico”, ou “é retangular”; “é curto”, ou “é comprido”; etc. Note que em todas essas características a ênfase está na aparência.

Um hebreu descreveria o mesmo lápis de forma bem mais simples e objetiva: “É feito de madeira, e eu escrevo palavras com isto.” Na cosmovisão hebraica, a essência das coisas e sua função eram mais importantes que a forma ou a aparência.

Por isso, os elogios de Salomão à sua amada no livro de Cantares parecem tão estranhos para nós, ocidentais. Dizer a uma mulher: “O teu ventre é [um] monte de trigo” (Ct 7:2) pode não soar bem hoje em dia. Mas, na cultura da época, a imagem do trigo trazia a ideia de fertilidade e fartura (função e essência), e ter muitos filhos era o sonho de toda mulher.

Outro exemplo é a descrição feita sobre a arca de Noé e o tabernáculo do Antigo Testamento (Gn 6:14-16; Êx 25-28). Qualquer um que lê o que a Bíblia diz a respeito dessas construções nota que há muito mais detalhes sobre a estrutura e os materiais empregados na confecção do que em relação à sua aparência.

Além de funcional e essencial, o estilo de descrição dos hebreus era também pessoal – o objeto era descrito de acordo com a relação dele com a pessoa. Ao descrever um dia ensolarado, em vez de dizer: “O dia está lindo”, um hebreu diria: “O sol aquece meu rosto!” Daí a descrição de Davi: “O Senhor é o meu pastor” (Sl 23:1).

Teoria x prática

Na cosmovisão grega, “saber” era mais importante do que “ser”. Para os gregos, sabedoria era o resultado sobretudo do estudo, da contemplação e do raciocínio. O conhecimento era essencialmente teórico, limitado ao mundo das ideias, e o mais importante era conhecer a si mesmo.

Para os hebreus, no entanto, o conhecimento era essencialmente prático. Conhecer era, principalmente, experimentar, se envolver com o objeto de estudo. O conhecimento de Deus era o mais importante, e a verdadeira sabedoria estava em saber ouvir, especialmente a Ele – “Ouve, ó Israel […]” (Dt 6:4). Na mentalidade hebraica, “temer a Deus” é o primeiro passo para ser sábio (Sl 111:10; Pv 1:7).

Tempo x espaço

Quando queremos incentivar alguém a prosseguir, dizemos: “Bola pra frente!”, e quando queremos dizer que algo ficou no passado, falamos: “Ficou para trás.” Mas quem nos ensinou que o futuro está à nossa frente e o passado atrás? Possivelmente, os gregos. Eles tinham uma visão espacial do tempo, e nós herdamos isso.

Os hebreus (que valorizavam mais o tempo do que o espaço) enxergavam passado e futuro de modo diferente. Para eles, mais importante do que localizar o tempo de forma espacial era defini-lo em ações completas e incompletas (aliás, “completo” e “incompleto” são os nomes que se dá aos tempos verbais do hebraico).

Na mentalidade hebraica antiga, o passado (tempo completo) estava à frente (as palavrastemol e qedem, “ontem” ou “antigamente”, significam também “em frente”), e o futuro (tempo incompleto) estava atrás – mahar, “amanhã” ou “no futuro”, vem da raiz ’ahar, que significa, entre outras coisas, “ficar atrás”, ou “para trás”. (Veja Êx 5:14; Jó 29:2; Êx 13:14 e Dt 6:20.)

E por que eles entendiam o tempo assim? O pensamento hebraico era simples e direto. O passado já foi completado, por isso podemos olhar para ele como se estivesse diante dos nossos olhos. O futuro, porém, ainda está indefinido, incompleto, por isso, ainda é desconhecido e é como se estivéssemos de costas para ele.

História cíclica x linear

Os gregos viam o curso da história como uma espécie de roda gigante. Para eles, a história se repetia eternamente, num eterno vai e vem sem destino.

Para os hebreus, no entanto, a história era linear e climática. Deus foi quem a iniciou (Gn 1:1), e é Ele quem faz com que ela prossiga para um fim, um clímax, o chamado “Dia do Senhor” (yom Yahweh; Sf 1:7, 14; Jl 2:1; 2Pe 3:10). Mas essa descontinuidade da história será apenas o começo da eternidade (‘olam; Dn 12:2).

Deus x “eu”

Na cosmovisão grega, o “eu” (ego) era o centro de tudo. Diz a lenda que à entrada do Oráculo de Delfos, na Grécia Antiga, havia a frase “Conhece-te a ti mesmo”. Na cultura hebraica, por outro lado, Deus era o centro de todas as coisas. Os hebreus não dividiam a vida, como nós fazemos, em sagrada e secular. Para eles, essas duas áreas eram uma coisa só, sob o domínio de Deus.

Até mesmo as tarefas do dia a dia eram consideradas, de certa forma, sagradas. A palavra hebraica ‘abad – “servir” ou “adorar” (Sl 100:2) – pode ser também traduzida como “trabalhar”. Na lavoura, na escola ou no templo, a vida era vista como um constante ato de adoração (1Co 10:31; Cl 3:2; 1Ts 5:17). Para eles, a adoração era mais do que um evento, era um estilo de vida.

Pensamento corporativo x individualismo

Os gregos consideravam a individualidade um valor supremo e praticamente inegociável. Os hebreus, por sua vez, tinham uma “personalidade corporativa” e enfatizavam a vida em comunidade. Na cosmovisão hebraica, havia uma ligação inseparável entre o indivíduo e o grupo. A vitória de um era a vitória de todos, e o fracasso de um representava o de todos. Por isso, para os cristãos, se, por um lado, a falha de Adão lá no Éden representou nossa queda, por outro lado, a morte de Cristo na cruz dá a todos a oportunidade de salvação (1Co 15:22; Jo 3:16).

Amor: decisão x emoção

No mundo grego, o amor, em suas várias formas, se resumia muitas vezes a um mero sentimento. Na visão hebraica, porém, amor é mais que isso: é uma escolha (em Ml 1:2, 3 e Rm 9:13, “amar” e “odiar” são sinônimos de “escolher” e “rejeitar”). É algo prático, traduzido em ações – a Deus e ao próximo (Mt 22:35-40).

Paz: presença x ausência

No pensamento ocidental, paz depende das circunstâncias. É a ausência de guerras, problemas e perturbações. Mas para os hebreus, paz não implicava, necessariamente, ausência, e sim presença. Só a presença de Deus pode trazer bem-estar, segurança e felicidade – que são ideias contidas na palavra shalom (Jz 6:24).

Integral x dualista

Os gregos tinham uma visão dualista da realidade. Com base nos ensinamentos de Platão, acreditavam que havia dois mundos: o das ideias (ou do espírito) e o mundo real. De acordo com essa visão, o ser humano era formado por duas partes: espírito (ou alma) e corpo. Para eles, o corpo e as coisas materiais eram ruins, e apenas o “espírito” e as coisas do “além” podiam ser considerados bons. Assim, a morte, na verdade, seria a libertação da alma, que, enquanto estivesse no corpo, estaria presa ao mundo material.

Já os hebreus tinham uma visão integral da vida. Para eles, o ser humano era completo, indivisível. Na mentalidade hebraica, alma se refere ao indivíduo como um todo (corpo, mente e emoções). De acordo com Gênesis 2:7, nós não temos uma alma, nós somos uma alma, ou seja, seres vivos (nefesh hayyah, em hebraico). Ao contrário dos gregos, que criam na imortalidade do espírito, os hebreus acreditavam na mortalidade da alma e na ressurreição (Ez 18:4; Dn 12:1, 2).

Espiritualidade x misticismo

Para os gregos, espiritualidade era algo místico. Ser espiritual significava desprezar totalmente a matéria e se conectar ao “outro mundo”. Esse desprezo das coisas materiais variava entre dois extremos. Alguns, por exemplo, renunciavam completamente os prazeres físicos, tais como a alimentação e o sexo, a ponto de mutilar seus órgãos genitais. Outros, por outro lado, se entregavam a todo tipo de sensualidade e orgia. Ambos os comportamentos tinham como base a ideia de que o corpo é mau, e que, no fim das contas, o que importa mesmo é a “alma”.

Mas para a cosmovisão hebraica, o corpo foi criado por Deus, e por isso é sagrado. A Bíblia diz que “do Senhor é a Terra” (Sl 24:1). E enquanto criava o mundo, Deus viu que este “era bom” (Gn 1:10, 12, 18, 21) – e não mau, como acreditavam os gregos. Deus fez o mundo (as coisas materiais), e deu ao ser humano a responsabilidade de cuidar dele.

Para os hebreus, portanto, espiritualidade tinha que ver, sim, com esta vida. Na cosmovisão bíblica, não é preciso se isolar em um monastério, recorrer à meditação transcendental ou entrar num estado de transe para atingir “o mundo superior”. É possível ser “santo” e desenvolver a espiritualidade no dia a dia, nas situações comuns da vida e no trato diário com as pessoas (Lv 20:7; 1Pe 1:16).

Conclusão

Embora devamos muito aos gregos como herdeiros de sua cultura, é fundamental que adotemos uma perspectiva hebraica ao estudar as Escrituras, a fim de que nossa hermenêutica se aproxime ao máximo do modo de pensar dos autores bíblicos, bem como do sentido original do texto.

(Eduardo Rueda é bacharel em Teologia e editor associado na Casa Publicadora Brasileira)

Fontes: Thorleif Boman, Hebrew thought compared with greek (Norton, 1970); Marvin R. Wilson, Our Father Abraham (Eerdmans, 1989); _________, “Hebrew thought in the life of the church”, The living and active word of God (Eisenbrauns, 1983); Jacques Doukhan, Hebrew for Theologians (University Press, 1993); Ferdinand O. Regalado, Hebrew thought: its implications for adventist education (Universidade Adventista das Filipinas, 2000); Daniel Lopez, doutorando em linguística pela UFF-RJ e professor de Filosofia da Educação na UFRJ; Rodrigo P. Silva, graduado em filosofia, arqueólogo e doutor em Teologia; site
Fonte: Criacionismo
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A Morte para os Cristãos

 
Para o crente, Cristo é a ressurreição e a vida. Em nosso Salvador é restaurada a vida que se perdera mediante o pecado; pois Ele possui vida em Si mesmo, para vivificar a quem quer. Acha-Se investido do poder de dar imortalidade. A vida que Ele depôs na humanidade, retoma, e dá à humanidade. “Eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância” (João 10:10), disse Ele. “Aquele que beber da água que Eu lhe der nunca terá sede, porque a água que Eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna.” João 4:14. “Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia.” João 6:54.   
Para o crente a morte não é senão de somenos importância. Cristo fala dela como se fora de pouca monta. “Se alguém guardar a Minha palavra, nunca verá a morte”, “nunca provará a morte”. João 8:51 e 52. Para o cristão a morte não é mais que um sono, um momento de silêncio e escuridão. A vida está escondida com Cristo em Deus, e “quando Cristo, que é a nossa vida, Se manifestar, então também vós vos manifestareis com Ele em glória”. Col. 3:4.

    A voz que bradou da cruz: “Está consumado” (João 19:30), foi ouvida entre os mortos. Penetrou as paredes dos sepulcros, ordenando aos que dormiam que despertassem. Assim será quando a voz de Cristo for ouvida do céu. Ela penetrará as sepulturas e abrirá os túmulos, e os mortos em Cristo ressurgirão. Na ressurreição do Salvador, algumas tumbas foram abertas, mas em Sua segunda vinda todos os queridos mortos Lhe ouvirão a voz, saindo para uma vida gloriosa, imortal. O mesmo poder que levantou a Cristo dentre os mortos, erguerá Sua igreja, glorificando-a com Ele, acima de todos os principados, de todas as potestades, acima de todo nome que se nomeia, não somente neste mundo mas também no mundo por vir.     

Ellen White. O Desejado de Todas as Nações, p. 786-787.

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Deus é Imortal; Portanto, o Homem Também é Imortal?

O homem é feito à imagem de Deus; Deus é imortal; portanto, o homem é imortal. Isso é o que a Bíblia ensina?

Por que deveria apenas um dos atributos de Deus, que é a imortalidade, ser escolhido para a comparação? Deus é Todo-poderoso. Isso significa, portanto, que o homem, feito à imagem de Deus, é também todo-poderoso? Deus é onisciente. É o homem, portanto, possuidor de sabedoria ilimitada, porque foi feito à imagem de Deus?

A Bíblia usa a palavra “imortalidade” apenas cinco vezes, e a palavra “imortal” somente uma vez. E neste único exemplo o termo é aplicado a Deus: “Eterno, imortal, invisível, Deus único.” I Tim. 1:17 As cinco referências que contêm a palavra “imortalidade” são as seguintes:

1. Romanos 2:7. “…  saber: a vida eterna aos que, com perseverança em favor o bem, procuram glória, e honra e incorrupção” (imortalidade).

Neste texto, o cristão é exortado a “procurar” a imortalidade. Por que deve ele procurá-la ou buscá-la se já a possui? Na mesma Epístola aos Romanos, Paulo cita o profeta Elias como dizendo de seus inimigos: “Procuram tirar-me a vida.” Compreende-se que os inimigos do profeta não o tinham ainda em suas mãos. Portanto, quando somos exortados a procurar imortalidade, uma vida que não conhece fim, devemos concluir que agora não possuímos tal vida.

2. II Timóteo 1:10. “…e que agora se manifestou pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual destruiu a morte, e trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho.”

Aqui lemos que Cristo “trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho”. A única dedução é que, longe de a imortalidade ser uma possessão natural de todas as pessoas, ela é uma das boas coisas que se tornaram possíveis mediante o evangelho. Escreveu Paulo: “O dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus.” Rom. 6:23 Por que necessitaríamos deste dom se já tivéssemos alma imortal?

3. I Coríntios 15:53. “Porque é necessário que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade.”

Esta passagem diz quando receberemos imortalidade. O tempo é “ao ressoar da última trombeta”. Então “o que é mortal” se revestirá “de imortalidade”. Por que deveria o apóstolo Paulo falar do nosso revestir da imortalidade em uma data futura se já a possuímos?

4. I Coríntios 15:54. “Mas, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrito: Tragada foi a morte na vitória.”

Este verso simplesmente adiciona o pensamento de que quando “o que é mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória.”

5. I Timóteo 6:16. 16 “…aquele que possui, ele só, a imortalidade, e habita em luz inacessível; a quem nenhum dos homens tem visto nem pode ver; ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém.”

Aqui aprendemos que Deus é “o único que possui imortalidade”. Este texto final resolve o assunto tão conclusivamente quanto as palavras poderiam fazê-lo. Ele explica plenamente por que somos exortados a “procurar” imortalidade e por que a imortalidade é algo de que devemos “revestir-nos” na “última trombeta”. Neste texto, não apenas aprendemos que não temos imortalidade, mas também somos informados de que somente Deus a possui.

Há outros textos que contêm no grego original a mesma palavra que é traduzida por “imortal” ou “imortalidade” nos seis textos que acabamos de considerar. Mas estes textos adicionais não requerem de nós que mudemos nossa conclusão; pelo contrário, eles a fortalecem. Considere, por exemplo, Romanos 1:23, onde Paulo, falando das ações idólatras dos pagãos, diz que eles “mudaram a glória do Deus incorruptível [imortal] em semelhança da imagem de homem corruptível [mortal]”. No grego, a palavra aqui traduzida por “incorruptível” é a mesma que é traduzida por “imortal” em I Timóteo 1:17: “Eterno, imortal, invisível, Deus único.” The Expositor’s Bible traduz assim a passagem: “Transmudaram a glória do Deus imortal em uma aparência da semelhança de homem mortal.” O Deus incorruptível e imortal é nitidamente contrastado com o homem mortal e corruptível.

Lemos em João 5:26 que “o Pai tem vida em si mesmo” e que Ele “concedeu ao Filho ter vida em si mesmo”. Mas em nenhum lugar lemos que Deus concedeu aos seres humanos ter vida em si mesmos. Por isso, a Bíblia nunca fala do ser humano como sendo imortal.

Fonte: Francis D. Nichol. Resposta a Objeções, p. 301-302.
Caso tenha interesse em conhecer mais sobre este assunto, clique aqui: O que acontece quando uma pessoa morre? 
“Porque Eu vivo, vocês também viverão” (João 14:19).
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A Artista Cristã que Morreu aos 27 Anos

Fé fortalecida, esperança celestial, vida de amor

Por Erica Richards

Onde estou dormindo o sono final
Não derrames lágrimas, pois a morte
É o descanso, enfim. É minha sorte.
Chora por vivos, sujeitos ao mal.
Não te lamentes por quem já repousa
Na sepultura, livre dos seus fardos,
Das tristezas da vida, dos seus cardos.
Na tumba silenciosa, ninguém ousa
Perturbar o descanso que eu almejo
Até quando Jesus iluminar
As trevas que vierem me cercar.
Deixa-me em paz. É isso que desejo.
Morro! ilumina-me o fanal
Da esperança de logo reencontrar
Amigos a quem amo, para reinar
Com Ele para sempre, ao final.*

Essas palavras, poderosas e incisivas, foram escritas por uma jovem que estava morrendo, em 1855. Sua curta vida foi um testemunho de sacrifício pela fé, e suas habilidades artísticas e criativas exerceram influência duradoura sobre nossa igreja, com palavras de esperança. Annie Rebekah Smith foi pioneira na fé adventista.

Nascida em 1828, em West Wilton, New Hampshire, Annie foi batizada na Igreja Batista, aos 10 anos de idade. Ela e a família deixaram a fé batista para unir-se ao movimento milerita, em 1844. Por ocasião do desapontamento, em outubro daquele ano, Annie decidiu colocar suas energias na literatura e na carreira artística. Por seis anos, ela frequentou sete escolas públicas diferentes. Estudou seis semestres no Seminário Charlestown, em Massachusetts. De natureza não confessional, o seminário oferecia curso bíblico semanalmente e exigia que os alunos fossem à igreja duas vezes todos os domingos.

Durante esses anos, a mãe de Annie ficou preocupada com ela e conversou sobre o assunto com o pioneiro Joseph Bates, quando este visitou o lar dos Smith. Bates insistiu com a Sra. Smith para que dissesse a Annie que ele iria pregar em Boston e que pedisse a ela para comparecer.

Naquela mesma noite, Annie Smith e Joseph Bates tiveram um sonho similar: todos os assentos da sala onde Bates pregaria, estavam preenchidos, menos um. No momento em que ele estava abrindo a Bíblia para pregar, a porta se abriu e uma garota (Annie) tomou o último assento.

Na noite seguinte, ao ir à reunião, Annie se perdeu no caminho e o sonho tornou-se realidade quando ela ocupou o último lugar vazio do salão. Quando os sonhos foram revelados, ela se sentiu profundamente tocada pelo ocorrido. Pouco tempo depois, Annie aceitou a fé adventista.

No dia 16 de setembro de 1851, poucas semanas após as conferências de Bates, o poema de Annie “Não Tema, Pequeno Rebanho” foi publicado na Review and Herald (Revista Adventista americana). Impressionado, o editor Tiago White insistiu para que Annie fosse para Nova Iorque e trabalhasse para a Review como revisora e editora.

Annie hesitou em aceitar a proposta, explicando aos White que sofria com um problema na visão, o qual a impedia de fazer tal trabalho. Enquanto estudava artes no seminário, Annie forçou muito os olhos e, depois de trabalhar por oito meses em um croqui de Boston, revelou que mal podia enxergar. Por esse motivo, mais tarde, ela decidiu desistir de seus sonhos de ser artista de sucesso e, aceitando a oferta de James White, mudou-se para Rochester.

O trabalho nem sempre foi fácil. Eram tempos economicamente difíceis e o movimento adventista era frequentemente ridicularizado e criticado. Por três anos, Annie trabalhou diligentemente para a Review, e acabou assumindo total responsabilidade pela revista, quando os White se ausentavam. Ela continuou a usar sua criatividade para publicar 45 hinos e poemas, três dos quais ainda permanecem no hinário americano: “How Far From Home” (Quão Longe Estamos do Lar), “I Saw One Weary” (Vi Alguém Cansado) e “Long Upon the Montains” (Longe Sobre as Montanhas).

Alguns pedaços da história de Annie Smith são imprecisos e, embora prováveis, não são totalmente claros. Embora fosse muito dedicada ao movimento adventista, a devoção pessoal de Annie por John Nevins Andrews acabou em desilusão. Andrews morava em Rochester durante o tempo em que Annie trabalhava para a Review e há indícios de que havia esperança de um futuro juntos. Inexplicavelmente, Andrews transferiu sua afeição para Angeline Stevens, deixando Annie com o coração partido.

“A decepção de Annie custou-lhe a vida”, escreveu Ellen G. White a Andrews, em uma carta. Em novembro de 1854, Annie contraiu tuberculose e voltou para casa. A esperança chegou na forma de tratamento hidroterápico em uma estância balneária da região, mas logo desapareceu, quando os sintomas pioraram.

Quando ficou claro que não viveria por muito tempo, Annie concentrou-se em um objetivo final: editar um livro com seus poemas. Seu irmão, Urias Smith, que na ocasião também trabalhava como editor da Review and Herald, voltou para casa para ajudá-la na publicação. Ela viveu dez dias depois da conclusão de seu trabalho. Como um tributo à sua irmã, Urias desenhou e imprimiu sua flor preferida, a peônia, na página do título do livro.

A mãe de Annie relatou a morte da filha em um diário, descrevendo a paz que Annie transmitia, enquanto, bravamente e sem medo, encarava a morte. “O céu está aberto”, exclamou ela. “Vou ressurgir na primeira ressurreição.”

Por 27 anos, Annie Smith viveu discretamente, mas em genuína dedicação à fé. Seus poemas e hinos resistiram através dos anos e são para nós uma janela para o passado de um movimento que foi conduzido principalmente por jovens: dias difíceis, sacrifício e compromisso com uma causa maior do que o eu. Mesmo em sua tristeza e de coração partido, ela continuou a trabalhar para o bem. Sua vida é um lindo exemplo de alguém que serviu, abrindo o caminho para que continuássemos a missão de contar aos outros sobre Cristo e nos preparar para muito em breve irmos para o lar.

Perto do lar! Abençoada esperança
Que anima o solitário coração,
Traz bálsamo que cura e confiança
Que anima tudo o que lhe vem à mão,
Seca as lágrimas do sofredor.
Não chores, pois. Vamos nos reencontrar
Onde os passos dos maus não têm rumor.
Nossas provas passaram; a alegria
Completa está e sempre vai
Acompanhar o nosso dia-a-dia,
Salvos, enfim, no lar de nosso Pai. .

*Versão dos poemas por Gesson Magalhães
**A bibliografia a seguir contribuiu grandemente para a produção deste artigo: Ronald Graybill, “Annie Smith, Her Life and Love” (Review and Herald, v. 153, 1º de abril de 1976), p. 4-7; Judith P. Nembhard, “Annie Smith’s Hymns of the Blessed Hope” (Review and Herald, v. 163, 28 de agosto de 1986), p. 12-14; e James R. Nix, “Annie Smith: Pioneer Poet” (Review and Herald, v. 164, 17 de dezembro de 1987), p. 17.
Erica Richards cursa o último ano da faculdade na Southern Adventist University, Collegedale, Tennessee, EUA. Quando escreveu este artigo, trabalhava como estagiária na Adventist Review.
Fonte: IASD Andradina/Publicado Originalmente em Adventist World
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Vídeo Maravilhoso! Tendo uma Visão da Cosmovisão

Celestial War between Jesus and Satan

Faz alguns meses, a equipe do Amazing Facts teve a feliz iniciativa de criar um documentário de poucos minutos com uma visão do grande conflito e do drama humano, extraída das Escrituras Sagradas. Trata-se de um resumo da cosmovisão básica adventista. O vídeo é tão especialmente didático e pertinente em seu conteúdo que me apresso em tornar esta apresentação a mais curta possível para que você tenha logo o privilégio de vê-lo aqui .

Oro para que, assistindo a ele, muitos sejam iluminados com o “evangelho eterno” (Apoc. 14:6) e tomem sua decisão ao lado de Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, Testemunha Fiel e Verdadeira, Rei dos reis e Senhor dos senhores. Amém! Maranata! Ora, vem Senhor Jesus! (Apocalipse 22:20)

 

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Hans Kelsen, a Bíblia e a Mortalidade da Alma

Hans Kelsen foi um dos mais importantes juristas do século XX. Seu pensamento muito contribuiu para moldar vários institutos jurídicos que caracterizam hoje o Estado Democrático de Direito. Da imensa lista dos trabalhos que publicou, entre livros e artigos, a obra que mais se destaca é Teoria Pura do Direito, que se tornaria a teoria jurídica mais influente do século passado.

No livro menos conhecido O que é Justiça? – A Justiça, o Direito e a Política no espelho da ciência (Martins Fontes, 1997), Kelsen separa um dos primeiros capítulos para lidar com a ideia de justiça nas Escrituras. Muito do que escreve ali representa mais uma interpretação pessoal de uma leitura parcial da Bíblia do que o ensino abrangente dela própria. Um dos trechos, porém, em que a exposição chama a atenção pela coerência e aproximação com a doutrina bíblica é o que trata da mortalidade da alma (p. 56-59, os itálicos são originais):

Nenhuma crença na imortalidade da alma. A missão do Messias era realizar a justiça neste mundo.16 Essa justiça não era concebida como retribuição exercida em outro mundo sobre as almas imateriais e imortais dos homens após a morte. Tal idéia – pelo menos originalmente – era impossível entre os judeus da Palestina. Pois, entre eles, prevalecia a visão de que o corpo e alma estão inseparavelmente ligados, de tal modo que a idéia de uma alma vivendo sem o seu corpo era-lhes estranha.17 A crença de que a alma continua a existir após a dissolução do corpo não é ensinada em nenhuma parte do Antigo Testamento; é diretamente rejeitada em Jó 14, 10 ss. e nos Salmos 27,13; 49, 12, 20; 88, 10 ss., e é vista com ceticismo no Eclesiastes 3, 21. Quando os profetas ou os salmistas falam da alma ou espírito do homem, referem-se à vida ou ao homem vivo. […] No Antigo Testamento, prevalecia a idéia de que os mortos existem no Xeol (Números 16,33), um lugar de escuridão e pó, de que os mortos estão “dormindo” lá, sem vida, trabalho, subsistência ou conhecimento reais (Lamentações 3,6; Jó 10,22; 14,12; Eclesiastes 9,10). O Xeol é a generalização do túmulo. […]

A crença na ressurreição dos mortos. Embora não houvesse nenhuma idéia de justiça no Xeol, havia, não obstante, uma crença na justiça de Deus a ser realizada após a morte. O instrumento dessa crença não era a idéia da imortalidade da alma, mas a idéia da ressurreição do corpo. Como não havia nenhuma crença na existência de uma alma imortal, não se podia imaginar a ansiada justiça realizada em outro mundo, um mundo transcendental. Era concebida como sendo realizada neste mundo, pelo  juízo final que inaugura o reino messiânico a ser estabelecido sobre a terra. A crença na ressurreição do corpo era um elemento essencial dessa concepção.22

Pelo que estas passagens sugerem, Hans Kelsen se sentiria à vontade para aceitar, ou quem sabe conduzir, um estudo bíblico sobre o estado dos mortos. Ainda que seus escritos não indiquem isto, terá ele aceitado um dia “a ressurreição e a vida”?

“Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá.” João 11:25. Além de mostrar mais uma vez a natureza mortal da alma (o ser humano), essa promessa de Jesus aponta para a única solução real para a morte: a ressurreição.

“Vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz. E, os que fizeram o bem, sairão para a ressurreição da vida; e, os que fizeram o mal, para a ressurreição da condenação” (João 5:28-29)

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O ABRAÇO DE DEUS – II – Consequências Naturais

Um lembrete importante, extraído ainda do capítulo “Se o Pai Celeste é Tão Bondoso, Por que Sofro Tanta Dor?” (”O Abraço de  Deus”, de M. Lloyd Erickson, Casa, 2003, 2a edição, 141 páginas), e não incluído no post O ABRAÇO DE DEUS – I por “limitação” espontânea de espaço:

[ Há consequências naturais para certas ações.

Grande parte da dor que sentimos na vida é atribuída às nossas próprias decisões e ações. Se eu fumo, é bem provável que contraia um enfisema pulmonar ou câncer dos pulmões…O Pai Celeste não disse: “Ou você me ama ou quebro o seu braço.” Ele não disse: “Ou você Me obedece ou lhe mato.” O que Ele disse foi: “Se você pecar, você irá morrer.” Esta é uma diferença vital que muitos cristãos não entendem. E que diferença isto faz ao nosso perfil do Pai Celeste!

Adão e Eva estavam viajando tranquilamente no novo Boeing 787 do Éden. O Pai celeste os havia avisado com respeito a saltarem da aeronave: “Se vocês saltarem, morrerão.”

O tentador entrou na cabina e disse: “O seu Pai não está dizendo a verdade. Ele só não quer que vocês se divirtam. Vocês não morrerão!”

Então Eva, rapidamente seguida por Adão, saltou. Eles se precipitaram em direção da morte certa – exceto se o Pai Celeste providenciasse um pára-quedas através do Seu Filho. Jesus saltou do avião e numa rápida queda livre Se aproximou de Adão e Eva – e de você e de mim. Ele morreu para que pudéssemos viver.

O Pai celeste disse a verdade. Morte é a consequência quando se salta de um 787. ]

Jamais devemos nos esquecer de  que a morte, ainda que parte real do cenário de rebelião em que estamos envolvidos, não terá a última palavra sobre os que aceitaram a salvação que Cristo ainda oferece:

“Pois como em Adão todos morrem, do mesmo modo em Cristo todos serão vivificados. Cada um, porém, na sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda.” I Cor. 15:22-23

“Amém; vem, Senhor Jesus.” Apoc. 22:20